quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Benfica - Jornada 7 - Rojões, pudim e digestivos.

Depois da escalada ao Pico do passado sábado, voltei ao Continente no início desta semana. O regresso ficou marcado por uma breve, porém intensa, paragem no Faial, da qual só me lembro do primeiro golo do Shalke 04, dos seis primeiros gins tónicos no Peter e de uma evacuação de helicóptero para Ponta Delgada.

Regressei ao Continente directamente para o Norte do País, onde, como é sabido, mantenho alguns negócios. Rumei ao Minho, mais precisamente à Roma portuguesa, tcc (também conhecida como) Braga, onde assisti, num conhecido restaurante perto da Sé, ao jogo que opôs o Benfica ao Sporting de lá. Durante o desafio fiz-me acompanhar de uns portentosos Rojões, condimentados com uma apurada tripa farinheira, batata aloirada em intensíssimo refogado, sarrabulho e grelos ensopados em delicado caldo de azeite e alho.

À medida que o jogo avançava e que eu ia devorando este prato supinamente confeccionado, cogitava em várias coisas, desde a imortalidade da alma à fantástica nomenclatura de Nico Gaitán. É que para além de um talento bruto, discretamente revelado nesta partida, Gaitán tem, de facto, nome de grande futebolista. Estará, por certo, ao nível de Enzo Scifo – o melhor nome de futebolista de todos os tempos, imortalizado no cósmico “Scifo, golo” de Rui Tovar - de Roberto Baggio, de Chrissie “Fucking” Waddle, de Mozer, de Shéu Han, de Jonas Thern (até dá gosto carregar no “rrr” de Thern), de Ljubinko Drulovic e de Preud'Homme. Tudo designativos poderosos, sonantes, sustenidos, capazes de encher a boca de qualquer relatador (salvo Gabriel Alves que era mau com os sotaques e que dizia “Proidóme” ao tentar dizer Preud'Homme). Do outro lado da barricada, Gil Baiano, Esquerdinha, Chicabala, Jorge Fucile, Carlitos, Nelo, Nandinho, El Hadrioui, Miguelito e Tote são exemplos acabados de jogadores condenados ao insucesso pela denominação. Exceptuam-se desta regra, eviendentemente, Ronaldinho Gaúcho e Cristiano Ronaldo, que tem o nome mais impensável de chamar a uma criança que tenho memória de ouvir. Mas adiante: como se sabe, ter nome de futebolista é meio caminho andado para se ser um grande futebolista. Nico Gaitán está, evidentemente, no bom caminho. Viu-se no domingo.

Devorada a travessa inteira de rojões e seguindo o jogo para um pudim Abade de Priscos, sou confrontado com a magnífica triangulação Fabinho-Saviola-Carlos Martins (lá está, nome de craque e de jazzman), que resulta no golão deste último. Considerando o estado de nervos em que me encontrava, a que não era alheia a demora na chegada de mais uma garrafa de um encorpado maduro tinto da região, explodi ali mesmo e gritei golo, seguido de expressão vernacular que rima com reviralho. No micronésimo de segundo em que o fiz, temi pela fúria brácara dos adeptos do Sporting local. Toda a gente sabe que um minhoto irritado é capaz do pior. Qual não é o meu espanto quando quatro quintos do restaurante gritam golo comigo. Recebo um abraço, dois palavrões e três sorrisos e compreendo a velha máxima que nos diz que em Braga o Benfica está tão em casa como na Estrada da Luz.

Ao engarfar o último trecho do sobredito pudim, reparo nas comemorações do autor do golo vermelho, que me deixaram bastante enjoado, como se acabasse de comer algo que leva vinte ovos e trezentos gramas de manteiga e açúcar: reparemos que Martins marca o golão, corre para a bandeirola de canto e simula qualquer coisa intravenosa – o que pode ser interpretado como algo para os lados do ilícito ou como uma crítica subtil à nomeação de Paulo Bento como seleccionador. Logo de seguida, pede uma bola ao apanha ditas, simula a gravidez e num gesto de extrema violência, esmurra a barriga grávida provocando parto extemporâneo do nascituro. O que quis Martins dizer com isto? Não fosse uma generosa aguardente envelhecida em carvalho, servida em balão aquecido, teria sido torturado por esta celebração plena de pós modernidade durante o resto do repasto.

Com o apito final do árbitro, depois do Benfica ter estado perto do dois a zero por duas vezes, dei por terminada a minha refeição. Quando me preparava para solicitar a conta ao Garçon, confronto-me com a entrevista relâmpago de Domingos Paciência: no seu fácies era legível a desesperada procura da perfeita desculpa para o sucedido. Não encontrou melhor que um fora de jogo assim-assim e a referência ao facto de o Benfica, depois do golo, ter jogado em queima-tempo. Após uma tirada deste calibre, fui forçado a mandar vir mais um digestivo. Fechei os olhos e, enquanto o bebia de penalty, consegui rever em fast forward os três minutos, dois beijos, seis apertos de mão, catorze palmas e cinquenta passos que o bracarense Vandinho deu para sair do campo instantes antes do fuzilamento Martineiro. “Ainda te lixas com f se dás um jogo como empatado aos setenta e três minutos”, já me dizia um tio meu, treinador adjunto (com curso de grau dois) do Marialvas de Cantanhede nos anos oitenta. Paguei a conta, saí do restaurante, e fui festejar com aqueles imensos benfiquistas que apitavam no Campo da Vinha. Afinal, estava “tipo do género” a jogar em casa.

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1 Comentários:

Anonymous Bruno Desaleixo disse...

É pena que o Sr. Carlos Pringle, quando gritou golo, não se tenha entalado com um maravilhoso rojão à minhota, mas isso também já seria um desperdício de comida.
Quando vier novamente à belíssima Bracara Augusta, avise que lhe arranjaremos outro tipo de comida mais acondimentada, comida de urso.
Contudo quero deixar claro que gosto das suas crónicas, apesar da sua preferência clubística (a mais vulgar), só não gosto é do que diz.
Fiquem bem.

6 de outubro de 2010 às 20:13  

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