sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Benfica - Jornada 20 - Tal como seria de esperar.

Tal como seria de esperar, na passada segunda feira o Benfica foi a Alvalade ganhar. Isto aconteceu enquanto eu deglutia, tranquilamente, vinte e cinco pastéis de Tentúgal na área de serviço de Antuã, na A1. O início deste texto não é inocente: se, no artigo anterior anunciava que, por questões de fézada, iria assistir ao jogo na sobredita estação de serviço, seria de esperar que o fizesse. Se tomarmos a postura existencial e futebolística de Benfica e Sporting na presente Liga por duas linhas convergentes, o seu ponto de intersecção reside na vitória do Benfica em qualquer campo. Ou seja, lógica e superstição, juntas, por via de regra resultam sempre, tal como seria de esperar.
A propósito do referido jogo, várias foram as vozes que exprimiram a convicção firme que o Benfica ganharia mesmo que estivesse a jogar apenas com sete jogadores e Luís Filipe fosse um deles. Tal convicção estará, por certo, ancorada na feliz conclusão aritmética de Alberto Cabral, adjunto de Paulo Sérgio, quando, no fim do jogo, afirmou que “se jogássemos sempre contra onze teríamos mais espaços para jogar”. Mais do que potenciar as convicções acima aventadas, com esta frase genial, Cabral abre a porta à sempre complicada lógica dedutiva e permite equacionar, no seu seguimento, a possibilidade de que o verdadeiramente tramado para o Sporting seria defrontar um Benfica composto apenas por Roberto na baliza e Nico Gaitán nas outras posições todas. Aí sim, poderia dar-se o caso de uma eventual cabazada. Um pouco como a teoria do queijo suíço: quanto mais buracos, melhor, logo, quanto mais queijo, menos queijo, melhor. Mais coisa, menos coisa.
No meio de tantas explicações para um resultado que choca pela sua profunda naturalidade, faltou apenas referir aquela que creio ser a principal causa do descalabro sportinguista: mais do que de resultados ou mais do que directiva, a grande crise do clube de Alvalade é essencialmente estética. É perfeitamente normal, como diria um anti-treinador do Benfica, que um clube que jogue num estádio tão horrendo como aquele se vá abaixo ao fim de alguns anos a ter que se confrontar com tal cenário semana sim, semana não. Vejamos: em primeiro lugar (e como me dizia um conclubista amigo), nada de bom augura a escolha, já na década de 2000, de um ícone da arquitectura dos oitentas: há aqui uma propensão para o insucesso que não pode ser de desconsiderar. Taveira não é o Beto Acosta da arquitectura. Em segundo lugar, e entrando já no campo da obra feita, é normal que, após alguns anos, o feísmo daquela aberração cromático-arquitectónica comece a esmagar a própria equipa. O nível exibicional de Anderson Polga, ano após ano, é disso um acabado e perfeito exemplo: um campeão do mundo de 2002 esmagado pela fealdade do seu local de trabalho nove anos mais tarde. Estas coisas, parecendo que não, contam imenso.
Hoje, em noite europeia e quebra enguiço na Alemanha, mais não me é possível escrever. É que com estas coisas da fézada, vi o Estugarda-Benfica a comer mais pastéis de Tentúgal que trouxe de Antuã na passada segunda, numa de continuar a dar sorte. Quando Cardozo marcou o segundo golo, não contive a comoção e chorei algumas lágrimas de glicose.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sporting - Jornada 20

O Sporting desata a perder o último dérbi bem antes das oito e meia da noite da passada segunda-feira, altura em que um jogador do Benfica coloca a nu as incontáveis carências de Leandro Grimi, uma pessoa com a coordenação motora dum insuficiente renal com muito sono. De facto, é no encontro que nos opôs ao Sporting Clube Olhanense que o derby começa a pender decisivamente para o outro lado, o lado dos maus. Operacionalize-se, conceptualmente e etc., esta questão: o Sporting partiu para o encontro no Algarve com um jogador em risco de exclusão por acumulação de cinco cartões amarelos. A expressão “em risco” deixa, logo de caminho, de fazer sentido a partir do momento em que as variáveis “jogador do Sporting” e “Olegário Benquerença” se conjugam num único acontecimento – neste caso, o mesmo encontro de futebol. Estando algures no estádio - fosse no relvado, no banco, na bancada ou até no bar do José Arcanjo, disfarçado com um bigode e óculos escuros -, Evaldo estaria tão em risco de ver o cartão amarelo das mãos de Olegário Benquerença como, após qualquer vocalização que apresente a mínima semelhança com um fado, há o “risco” de alguém gritar “Ah, fadista!”. E como havia risco de o final do seriado “Lost” não ser uma das maiores banhadas da história televisiva ocidental. Isto é, não se pode falar em risco quando estamos a abordar uma inevitabilidade histórico-cultural, ou, no caso da postura de Benquerença, uma inevitabilidade meramente fidepútica.

A ausência de Evaldo não seria um problema de maior, se as qualidades do seu substituto directo para o desempenho da função de lateral-esquerdo não se encetassem e se encerrassem no facto de este último conhecer existência enquanto mamífero canhoto. Aliás, recorra-se antes a “mamífero e canhoto”, para parecer que Grimi preenche duas das faculdades necessárias para ser defesa-esquerdo. A evidente incapacidade de Grimi para desempenhar qualquer função num campo de futebol não pune o Sporting apenas quando esse desastrado ente aparece no onze do clube. Concretizo este ameaça, evocando o facto de, durante a semana, Grimi treinar com, por exemplo, Cristiano. Enfrentando Grimi nos treinos, Cristiano dará, imediatamente, a impressão de que está num momento de forma inexplicável por qualquer ciência, ao ponto de Cabral e Paulo Sérgio questionarem, entre si, se este extremo não será a reencarnação do Garrincha, mas em mil vezes melhor. Corolário lógico: Cristiano é titular contra o Benfica e, ainda por cima, convencido, também ele, de que se tornara entretanto no Garrincha. Logo, não é quando Salvio e Gaitán marcam aqueles golos relativamente feios que o Sporting perde o jogo. É quando a ala esquerda titular do Sporting nesse encontro faz suspirar pela dupla Paíto-Fumo.

Perante isto, o Benfica venceria sempre o desafio de segunda-feira. Com isto em campo, deixa de haver o “no futebol nunca se sabe, são onze contra onze, tudo pode acontecer”. Nem quando ficaram onze contra dez, já agora. Jogar contra dez é mais difícil, como disse o adjunto do Sporting, Cabral (enfim...), mas só porque os onze do outro lado têm o Grimi, um atleta cujo pé esquerdo produz roscas à balda para onde estiver virado à razão de “sempre que toca o esférico”. Junte-se a isto um avançado que joga no limite do fora de jogo, mas sempre para lá do limite legal. E para quê? Para se isolar mais facilmente perante o guarda-redes? Não, para receber a bola, recuar, rodar sobre si próprio, pentear a bola várias vezes, e, demasiado tempo depois, levantar a cabeça, ver que não tem ninguém escandalosamente desmarcado, e tocar a bola para trás, para se tentar tudo outra vez. Não obstante tudo isto, devo dizer que a culpa de Grimi é, e será sempre, relativa. Ele tem noção do que é: o pior jogador que uma série de acasos cósmicos alguma vez permitiu possuir um contrato profissional. Contudo, se o plantel do Sporting tiver um bidão, literalmente um bidão, no plantel, ninguém obriga o treinador do Sporting a colocá-lo em campo. Anseio, então, pelo dia em que Paulo Sérgio cite finalmente Keanue Reeves na valorosa metáfora para a vida que é a película “Ruptura Explosiva” e diga, de uma vez, “I can't do this”. E desapareça.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Benfica - Jornada 19 - Vem aí a Jornada 20.

Os últimos dois jogos do Benfica apanharam-me em trânsito. Se nos idos do Benfica-Vitória de Guimarães me encontrava a atravessar o país, rumando de Lisboa ao Porto na A1, no Benfica-Estugarda encontrava-me a fazer precisamente o caminho inverso. Parêntesis: escusado será invocar aqui, a favor do viajante automobilizado, a necessidade de uma rádio Benfica, a transmitir para o país inteiro com facciosismo, paixão e menorização de todo e qualquer adversário. Adiante: entre ambas as viagens, ambos os jogos e eu próprio há um instante decisivo que nos une a todos: por uma razão que só o destino parece conhecer, mas a que não será alheia a força cósmica que põe os planetas a girar, os momentos decisivos dos dois jogos que me apanharam em trânsito pelo país aconteceram precisamente quando me encontrava a malhar um pastel de Tentúgal na área de serviço de Antuã. No caso do Benfica–V. Guimarães, quando Carlos Martins assina aquele tratado de beleza futebolística aplicada, estava eu na dita área, sentido Sul-Norte; no caso do Benfica-Estugarda, quando Franco Jara chapeleia e marca e Oscar Cardozo entra e confirma, lá estava eu na mesma área, no sentido Norte-Sul, depois de abastecer o depósito. Como já defendi por diversas vezes neste espaço, entendo que a fézada é um “eixo analítico do futebol dos tempos modernos”. Assim acontece quando se trata de teorizar sobre o jogo e sobre os agentes da bola (relembro sempre aquele treinador que mandava os jogadores sair do autocarro quando este fazia marcha atrás), mas também quando consideramos os adeptos e os seus hábitos comportamentais (relembro um velho amigo que nos tempos do Toni deixou crescer o bigode para dar sorte ao Benfica). Ora, chegados a este ponto, é evidente que amanhã às 20:15 lá estarei, no snack bar da estação de Antuã, com uma caixa de vinte e cinco pasteis de Tentúgal, a olhar para a televisão.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

PORTO - JORNADA 19 - Braga, Sevilha, Estugarda


No momento em que escrevo este epitáfio às ambições europeias de Jorge Jesus estou em posição de referir que à vitória do porto sobre o Braga se somou outra ante o Sevilha, no entanto, por uma questão de modéstia emprestada não vou tomar partido dessa posição. Até porque, se o fizesse, estaria a enveredar por uma visão do mundo que faz chacota de Jorge Jesus sempre que ele fala da nota artística da sua equipa em favor de uma outra, a de Villas-Boas, que deixa isso das notas para o Rui Santos. Ademais, uma equipa que tem em Cardozo a sua referência maior devia ter o pudor de tecer considerações estéticas acerca da realidade contemporânea; sejamos francos, ao pé de Cardozo o Jardel parece um cisne, o Peter Crouch faz lembrar o Nureyev.

Reparem, seria incapaz de promover uma petição para banir o Cardozo do desporto em nome da elegância do futebol nacional, até porque é o melhor jogador mais deselegante de sempre, no entanto, a bem do Ranking de Portugal na Uefa, seria capaz de sugerir a Jorge Jesus para deixar o êxtase artístico para os críticos do Y e que perdesse um tempinho para estudar os adversários europeus. É que enquanto o Villas-Boas passa a noites a investigar o lanche provável de Luís Fabiano no dia do jogo, Jesus, como se percebeu, andou a semana toda a ver o jogo de Guimarães e consta que ficou muito surpreendido quando ontem não ouviu a música da Champions.

Aliás, não me custa crer que o inicio de época que amavelmente concedeu o campeonato ao Porto se tenha devido ao tempo que Jesus perdeu a fazer uploads de vídeos no youtube com os jogos do campeonato passado (trilha sonora: eminem; título: o mestre da táctica). O mestre da táctica, sublime escultor do seu próprio falo a despeito daquilo com a equipa israelita, só teria a mirífica possibilidades de ganhar a Liga Europa se nos próximos 4 jogos apanhar as 4 equipas portuguesas, as únicas com que está vagamente familiarizado. Mas se combinarmos a probabilidade de o Porto ganhar ao Benfica, a probabilidade do Estugarda Eliminar o Benfica, e a probabilidade do Benfica apanhar uma equipa estrangeira nos quartos de final, faz todo o sentido que Jesus nos lembre à saciedade que é o melhor coreógrafo nacional a trabalhar sem recibos verdes.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sporting - Jornada 19

No meu enciclopédico parecer, subsiste no futebol uma posição cujo enquadramento na equipa demonstra, para além de qualquer dúvida razoável, a habilidade do técnico que a orienta. Essa posição é aquela que os italianos identificam como regista. O director.  Aquele de onde se sabe sair o futebol na sua essência mais pura e atraente: as cuecas, as quebras de rins, os passes de morte, os golos bonitos, as cabritas, as penalidades batidas com um misto perfeito de frieza e técnica, e as cuecas outra vez, se possível ao mesmo adversário, para ele ficar piurso. No seu actual plantel de “temos de levantar a cabeça e continuar a trabalhar”, o Sporting tem apenas um regista: Matías Fernández, o único chileno, a par dos míticos Elias Figueroa e Marcelo Salas, a ter vencido o prémio para melhor futebolista do ano em todo o continente americano, e o único a consegui-lo ao serviço duma equipa chilena. Desde que levou uma paralítica dum Milhazes (mais do que se referir ao próprio Milhazes, Milhazes é aqui utilizado como conceito que identifica um tipo de lateral muito específico: madeixas, cacetada, pluralização de quase todas as palavras aquando do discurso oral, etc.) contra o Rio Ave, já em Outubro, o chileno tem regressado aos poucos, tendo registado quarenta e cinco minutos no passado sábado, em Olhão. Trata-se, tão-só, e no mínimo, do melhor regista verde-e-branco do pós-Balakov, mas tarda em impor-se. As razões são simples. Para já, Matías começou a sua carreira de leão ao peito com Paulo Bento como treinador. Assumido coleccionador de defeitos profissionais e de personalidade, Paulo Bento chegou, em tempos, a colocar Yannick Djaló como regista do Sporting. Como é que se coloca, naquele posto em concreto, um jogador desprovido de técnica, de visão de jogo, de capacidade de passe e de cerca de 99% dos outros predicados indispensáveis à prática de futebol profissional, é algo que me transcende. Isto, meus senhores, é um treinador que a) não percebe nada do que faz e/ou b) estava a fazer de propósito. Seja qual for a alínea para junto da qual se inclinem mais, está bom de ver que Paulo Bento nunca seria o homem indicado para fazer Matías brilhar e, por arrasto, toda a equipa do Sporting. Saindo Bento, entra Carvalhal; um homem que, pese embora a óbvia qualidade de ter sido dos poucos treinadores da nova vaga que nunca vimos sem ser impecavelmente barbeado, o mais próximo dum regista que tinha orientado fora um Abílio, um Marcinho e um Juninho Petrolina. Para esta época, o talento de Matías tinha Paulo Sérgio como principal oponente. O actual treinador do Sporting teve direito ao seu espaço num clube grandioso por um único e singelo motivo: a mera sorte de ter existência numa época em que, tamanha é a sede pela aparição de um novo Mourinho, o simples facto de se ter sido um jogador medíocre concede um largo benefício da dúvida no exercício da função de treinador de futebol. Se a mediocridade enquanto jogador de futebol fosse sinónimo de profícuas carreiras de treinador, o Sporting devia apresentar, já amanhã, Djaló como seu treinador-jogador – esse sim, seria o novo Mourinho, embora com toaletes integrais daquela ganga que simula estar coçada em vez de fatos italianos cujo preço cobre a dívida externa de vários pequenos países. No duelo entre Matías e Paulo “o onze tem de ter três médios iguais” Sérgio, vou sempre pender para o lado do chileno. Por todas as razões e mais algumas, mas sobretudo porque, ao passo que a equipa sai quadrada das mãos de Paulo Sérgio, dos pés de Matías, a bola sai redonda.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Porto - Jornada 18 - A sombra da dúvida

A relação do Valter com a picanha chegou a um beco sem saída: a faixa central onde o Hulk foi posto a jogar.

Pessoas que eu considerava amigas tentam destruir-me as relações com aqueles que eu mais estimo. Após a derrota para a taça, nem a equipa tinha entrado no túnel, e já me sopravam nos ouvidos com todo o tipo de injúrias a Villas-Boas. “Repara que ele é novo e giro e a qualquer momento foge com a tua namorada para as ilhas virgens, tem lá conhecimentos e sabe onde se servem os melhores daikiris”. Houve ainda quem tentasse emprenhar-me com argumentos menores: “não achas incrível que ele meta o Hulk no meio?”. “E o Sereno? Não achas que o Fucile dava mais pica àquela ala?”. “O gacto de Valter estar gordo não devia ser um impeditivo, olha para ti és um balofo e nem por isso deixamos de jogar contigo.”

No fim da vitória tristonha com o Rio Ave, voltaram à carga. É claro que nessa altura já estava preparado para rebater os argumentos mais insidiosos, lembrei-me que não tenho namorada desde o tempo do Artur Jorge, lembrei-me que a genica do Fucile nesta época costuma redundar em penalties para as equipas adversárias, lembrei-me que não é inteiramente verdade que a malta jogue comigo porque quer (só eu é que tenho o número do homem que abre o pavilhão, por isso não têm outro remédio).

Mas, eu sou assim uma pessoa: publicamente defendo aqueles que amo e depois, no sossego da fila do Brasil ao Peso, deixo cair em mim a sombra de uma dúvida: “O Hulk no meio?”, “Será que na Figueira fazem bons Daikiris?”, “que calmantes é que ele andou a dar ao Belluschi?”. Na altura de pagar, dou em mim conciliado com os eventos mais recentes, o Iturbe marcou contra o Brasil, ainda temos 11 pontos de vantagem, O Benfica ganhou porque o Maicon e Fernando estariam concentrados na crise do Egipto, e o Rio Ave, bem vistas as coisas, é uma equipa difícil. Recebo sms do homem do pavilhão a avisar que deu à filha o nome da Andreia Villas-Boas Jasmim, homenagem ao povo do Egipto e ao treinador do 5-0. Que vai haver um mês com 5 sextas e que é preciso avisar à malta para pagar mais 3 euros.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sporting - Jornada 18

Liedson, o jogador que mais golos anotou em Portugal na última década, deixou o Sporting. Recebendo a Naval 1º de Maio (um clube que, apresentando um feriado no nome, terá a eterna simpatia dos portugueses), o Sporting tinha tudo para se despedir de Liedson com um triunfo. Só que o Sporting não gosta de ter tudo. Daí que Abel, uma pessoa cuja presença no relvado só se explica pela existência de um qualquer concurso que permita a um civil ocupar a faixa direita de uma equipa da 1ª divisão, jogue. Daí que Postiga, um avançado cuja quantidade de bolas perdidas só caminha a par do número de vezes em que cai em posição de fora de jogo, jogue também. Daí que muita coisa, na verdade. Embora alguns arautos da desgraça retumbem com insistência no sentido inverso, o Sporting não caminha a passos largos para a extinção porra nenhuma. O despertar deste fantasma está habitualmente ligado a diversas realidades, sejam estas as dívidas à banca, os orçamentos ridículos quando comparados com os dos principais rivais, as direcções a quem é, de facto, fácil associar um fruto (a banana), o pouco à-vontade no jogo subterrâneo e de bastidores ou, como se efectivou na sexta-feira passada, a saída do seu maior símbolo do novo e actual milénio. Apesar disso, e por muitos Abéis que tenhamos no relvado de Alvalade a agoniar a humanidade com a sua falta de talento físico-táctico-metafísico-etc. para não apresentar a bola e o espaço como principal adversário, o clube perdurará, e com a enormidade que o universo já lhe concedeu para todo o sempre. Não tenhamos ilusões de tragediógrafo: um dos três gajos a discutir futebol nos canais nacionais será sempre afecto à causa sportinguista. Em termos de fervor futebolístico, o país permite, basicamente, uma de três saídas à garotada que está para decidir que lema seguir até ao fim das suas vidas. Seguindo a actual classificação do campeonato nacional da 1ª divisão, temos, como hipótese a), o Porto. Uma vida enquanto  febriciante azul e branco é quase sempre a via escolhida pelos garotos para quem o que importa é ganhar. Dê por onde der, nem que seja com golos com a mão ou do apanha-bolas. São os garotos que escolhem sempre o Ryu ou o Ken no Street Fighter 2 e só fazem hadoukens. Os que, nas peladinhas no recreio, querem ser da equipa do melhor jogador, um repetente, senão amuam, não jogam e não emprestam a bola. Depois há a hipótese b) o Benfica. Esta é a via lógica para os garotos que vão atrás da maioria. Os que dizem que claro que a terra é plana, se a maioria antes deles o tiver dito também. São os que, desde garotos, vivem sob o credo de que “mais é melhor” e “mais tem razão”. O Sporting surge-nos aqui como a hipótese c). O garoto escolhe o Sporting porque, para ele, jogar sempre com o Ken ou o Ryu é uma seca. Não há emoção, não há sofrimento, não há, no fundo, paixão. Toma consciência, desde cedo, que os garotos que escolhem o Ryu ou o Ken não ficam contentes quando ganham. Ficam aliviados. E alívio é o que uma pessoa procura quando, aflita, vai ao quarto-de-banho. Um clube de futebol deve dar-nos bem mais. O garoto que escolhe o Sporting percebe também que a maioria raramente tem razão. E quer uma crença que lhe permita manter a singularidade da sua existência. Uma crença que, em última análise, lhe permita ser uma pessoa melhor.

Essa crença é o Sporting. Citando e adaptando um tipo qualquer, a paixão pelo Sporting surge da mesma forma que, mais tarde, emergirá a paixão por uma mulher: de repente, acriticamente, sem se debruçar uma nada que seja sobre a dor que acarretará. E, então, da mesma forma que existirão sempre homens a amar mulheres, vão existir adeptos de bola portadores da paixão pelo Sporting. A despedida de Liedson foi emocionante e a homenagem merecida, como só uma falange composta por pessoas, que um dia foram garotos que escolhiam o Honda ou o Zangief e que torciam o nariz perante a quasi-unanimidade de algumas causas, sabe, quer e gosta de proporcionar aos seus.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Benfica - Jornada 18 - Mas afinal de que falamos quando falamos de Benfiquismo?

Permitam-me, caros leitores, que hoje não me detenha nos dois últimos jogos do Benfica: na meia final no Dragão (e na necessidade de não embandeirar em arco com a vitória alcançada) e na vitória de Setúbal, contra o Vitória local, com grandes golos de Gaitán e Jara. Permitam-me sim, que me detenha na definição de alguns instantes que constróem o Benfiquismo.

O Benfiquismo enquanto sentimento é um processo em constante renovação. Um pouco como o amor, que, segundo se diz, funciona da mesma maneira. Esta renovação é feita de momentos marcantes de transcendência, de superação, de tragédia e, às vezes, de alguma patetice que, note-se, também faz parte do processo. Muitos desses momentos particularizam-se em imagens: relembramos, assim por alto, o jersey de Cosme Damião, todas as entradas em campo de Mário Coluna com a camisola do Benfica vestida, toda a existência de Eusébio da Silva Ferreira enquanto categoria ontológica, Zé Águas com o caneco em 61, Zé Águas com o caneco em 62, Sven Goran Eriksson a aterrar na Portela em 1982 e em 1989, Shéu Han a marcar a Munaron a passe de peito de Humberto Coelho em 1983, Veloso a disparar para Van Breukelen defender em 88, Hernâni Madruga Neves a desacelerar convencido que ouviu o árbitro a apitar fora de jogo a Frank Rijkaard que se isola em 1991, Isaías Marques Soares a entrar em Highbury Park a 6 de Novembro de 1991, JVP a 14 de Maio de 1994, em pleno estádio de Alvalade, a levar as mãos ao rosto marejado de lágrimas pela comoção de ter concretizado a ideia de estética total do futebol quando, na expressão feliz de Gabriel Alves, “partiu os rins a Vujacic” e disparou, outra vez, para o fundo das redes de Lemajic, Chico Buarque de Holanda equipado a rigor de águia ao peito com Eusébio e Coluna a ladear o poeta, Artur Jorge a dizer, a propósito de Caniggia "todos temos as nossas dependências", Rushfeldt a apertar a mão a Vale Azevedo, Michel Preud'Homme a voar, Manel Vilarinho no dia das eleições a dizer "vou ganhar largo", Simão Sabrosa em Anfield Road, Miccoli em Anfield Road e Rui Costa de um modo geral, incluindo aqui o melhor golo sofrido pelo Benfica desde a sua existência até ao fim do Tempo, marcado pelo Rui ao serviço da Fiorentina a 13 de Agosto de 1996.

Recentemente – quer-se dizer, há uma semana – o Benfiquismo conheceu mais uma inscrição na galeria da inesquecibilidade. Renovou-se num momento marcante que perdurará na memória ao lado dos elencados no parágrafo anterior. Esse momento acontece por volta dominuto seis do jogo com o F. C. do Porto no sempre traumático Estádio do Dragão. Fábio Coentrão intercepta, corre, tabela, vai, corre mais, desmarca-se a passe de Saviola, acredita na validade do passe do colega e, como dizia Orlando Dias Agudo a propósito da Selecção da França no México 86 “acredita até à morte da jogada”. E Fábio vai mesmo lá, até ao fim das coisas, até à morte, e consegue meter o pé com a elegância e delicadeza só ao alcance de quem, sozinho no mundo, ainda acredita que é possível o amor. E marca. Pensará o claro leitor que a inscrição na galeria de Benfiquismos inesquecíveis é esta, a do golo de Fabinho ao F. C. do Porto. Nada mais errado. O verdadeiro momento épico, lendário e superador a que me refiro vem a seguir e é o modo profundamente glorioso com que Fábio Rafael Alexandre da Silva Coentrão festejou esse mesmo golo. Fábio, consciente da monumentalidade do que tinha acabado de fazer, acto contínuo, salta a barreira da publicidade e, metaforicamente, corre para os braços do Benfica, abraçando-se a todos e a cada um dos benfiquistas espalhados pelo mundo, motivando-os, empolgando-nos, fazendo-nos crer, num segundo, que o impossível é exigível, celebrando a camisola que veste, honrando-a também como sua, assumindo-se como líder e como símbolo. Naquele instante, Fabião não está em si, está no benfiquismo. E ali se deixa estar mais uns segundos, crente que não há agentes de segurança que o demovam, Javi Garcia que o chame de volta ao jogo que se prepara para ganhar. Um amigo meu dizia-me que foi à inglesa. Também foi. Mas foi, acima de tudo, à Benfica.