quinta-feira, 24 de março de 2011

Jornada 24 - O mal dos outros

Virada que foi a vaga aflição trazida pelo confronto com a Académica, e enquanto não é a hora de festejarmos o campeonato no túnel da luz, o portista carente de emoções futebolísticas não tem outro remédio senão virar-se para as eleições do Sporting (eu sei, eu sei). Há muito que aquele clube não conseguia cativar os meios de comunicação social além das rádios regionais e das tardes em que a redacção da “Bola Branca” se apanha com falta de assunto e, acto contínuo, telefona ao filho de um dos 5 violinos para um pizzicato de nostalgia.

Enquanto José Eduardo Bettencourt faz repousar todas as suas possibilidades de redenção na hipótese de Sinama Pongolle mostrar no Saragoça que afinal não é inferior ao Rodrigo Tiui, os 5 candidatos do Sporting fazem repousar todas as hipóteses de prosperidade futura em mostrar que não são tão maus como Godinho Lopes. Godinho Lopes é o que tem mostrado mais dificuldade em distanciar-se da sua existência enquanto pessoa anódina: as tentativas de produzir um camuflado com Luís Duque, Carlos Freitas e Domingos embatem com gravidade no brilho da sua insignificância. Ainda assim o mais surpreendente é a dificuldade dos outros candidatos para serem incrivelmente melhores do que Godinho Lopes: não são.

Dias Ferreira nesta contenda tem momentos em que parece ser uma pessoa a quem poderíamos entregar o cão para que o passeasse uns 15 minutos, não é: o mais acertado será levar o cão directamente para o matadouro municipal. Abrantes Mendes, irmão gémeo de Defensor de Moura em quem votei nas últimas eleições, conseguiu ganhar um debate; por deus quando um homem daqueles ganha um debate a hipótese de entregar o Sporting a um ditador sul-americano dos anos 70 na reforma deve ser seriamente ponderada. A bitola posta nestas eleições cria a ilusão que Pedro Baltazar é um pouco melhor que o rei Jorge VI recentemente representado por Colin Firth, não é. Enquanto o rei Jorge VI se entaramelava porque o aparelho vocal tinha dificuldade em acompanhar o tempo discursivo do seu pensamento, Pedro Baltazar (um homem bonito que passou ao lado de uma carreira como modelo de relógios caros) desacelera a fala para que lentidão do seu pensamento tenha uma qualquer banda sonora.

Já Bruno de Carvalho no meio daquela salsa parece ser o Martin Luther King dos tempos modernos, não é. Além de uma boa voz e de uma assertividade que parece fazer medo aos demais contendentes, em condições normais Bruno de Carvalho teria poucas hipóteses de ganhar as eleições da União de Coimbra nem que o Mandatário fosse o Abramovich (de notar que a União de Coimbra, tal como o Sporting, há anos que não tem futebol sénior). Mas nada disto é normal e o Sportinguistas devem ter a inteligência de escolher o Martin Luther King de trazer por casa: uma voz grossa e uns russos com dinheiro a sobrar é mais do que qualquer um dos outros candidatos tem para oferecer.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sporting - Jornada 22, 23 & 24

Após um período de pouquidade presencial – terei estado em coma induzido, reflectindo sobre o Sporting do segundo milénio - eis-me de regresso. No campo de futebol, nada de novo a registar. Nos últimos cinco desafios, o Sporting, um clube que, segundo os analistas industriados, tem um ponta-de-lança em grande forma, atingiu a assombrosa totalidade de um golo marcado. Um feito ao nível da selecção de San Marino em qualquer fase de qualificação que corra especialmente mal. O ponta-de-lança em grande forma, na melhor forma da sua carreira, apresenta mais um golo na Liga do que Nuno Gomes e Otamendi, mais dois do que um trinco líbio do Beira-mar e mais três do que Abel Ferreira, um atleta cuja única ligação ao mundo do futebol profissional devia começar e terminar na partilha de apelido com Eusébio da Silva Ferreira. Defrontando, ainda que sem maçar por aí além, a União Desportiva de Leiria, SAD, Hélder Postiga deu mais um conseguido workshop, com duração de noventa minutos, de como não ser um avançado. E, como não poderia deixar de ser, o fora de jogo - o elemento do jogo de futebol que, junto com os remates disparatados a quarenta metros da baliza e cabeceamentos que, na prática, não passam de amortecimentos para o guardião adversário, Postiga mais aprecia e pratica – foi um dos conteúdos abordados. É uma clara especialidade e será sempre de bom-tom lembrar os maldizentes de Postiga que é graças a ele que o Sporting, conquanto já urinando fora da competição, marca ainda presença nos tops estatísticos da Liga Europa (precisamente, está bom de ver, no top-1 de jogadores mais vezes apanhados em fora de jogo). Além de ter o instinto matador dum coala morto, Postiga tem, como já fui dizendo por aqui e em gritarias em vários cafés, excelente imprensa, sendo que, no seguimento dessa relação, se insiste em confundir o “dar o litro” com "estar sempre com um ar cansado e, de quando em vez, fazer uns carrinhos desconchavados a metros do defesa que está a aliviar uma bola". Ainda no encontro que nos opôs à União de Leiria, tivemos oportunidade, por volta do minuto décimo nono, de assistir a uma tentativa, por parte de Yannick Djaló, de chapéu que define qualquer jogador e, até, campeonato. Portugal próximo de ter três equipas na Champions de 2012/13? É a UEFA ter acesso imagético àquela tentativa de chapéu e até o campeão nacional de 2011/12 terá de jogar umas 15 pré-eliminatórias.

Da campanha eleitoral que visa o momento eleiçoeiro que aí vem, confesso a minha dificuldade em optar claramente por um dos candidatos. Não tenho a certeza que, por exemplo, Bruno de Carvalho não se tenha candidatado apenas para ter oportunidade de conhecer o van Basten. O seu fundo de 50 milhões até tem sido associado à máfia russa, mas isso não me choca nada, tratando-se duma organização de que, não por acaso, me lembro (sobretudo dos castigos a traidores) sempre que o Djaló domina uma bola com a mesma eficácia que a minha parede da sala. Por seu turno, Dias Ferreira bateu com a cabeça no copo verde que tinha à sua frente no programa “O Dia Seguinte” e acha que Paulo Futre é um símbolo de sportinguismo. Simão e João Moutinho eram os nomes seguintes, se o Futre não pudesse, era, José Eugénio? Enfim. Abrantes Mendes tem um certo je ne sais quoi de Lazlo Boloni, o que, mental e automaticamente, remeterá a sua figura para “ser campeão à primeira” ou “levar 4-0 do Paços”. Depende do ângulo. Aparenta ainda não comprar um fato novo desde o México 86, mas tudo indica que, em compensação, lave a seco os que tem. Finalmente, de Abrantes Mendes, é de referir que não tem treinador confirmado, tampouco jogadores, relevando que pretende deixar o Sporting exactamente como está: sem treinador e sem jogadores. Também em termos físicos, um outro candidato, Pedro Baltazar, evoca-nos um híbrido entre Emir Kusturica e Paolo Maldini. O seu treinador é Zico, reforçando a clara tendência eleitoral de reforçar o Sporting com um treinador que tenha sido um jogador do carago; o que faz todo o sentido, depois de, com Paulo Sérgio, termos percebido que ter sido suplente do Estoril Praia no final da década de 90 não é sinónimo de treinador de jeito. Se um jogador medíocre deu num treinador indutor de vómito, há que virar o disco e, nesse sentido, aí temos Zico, van Basten e Rijkaard, falando-se ainda em Balakov (Abrantes Mendes) e, a um nível bem menos do carago, Domingos (Godinho Lopes). Se se tivesse mantido na corrida ao cadeirão, estou em crer que Zeferino Boal apresentaria Maradona como treinador. Por fim, Godinho Lopes tem sido acusado de ser o candidato da continuidade e, mais do que me lembrar de genuflexões à banca, continuidade traz-me à memória Hélder Postiga, Grimi, Abel e Djaló, entre outros. Não é um bom cartão-de-visita.

Indeciso que estou, reconheço aqui que optarei pela lista que, até sábado, prometer tomar duas medidas que eu, enquanto candidato de bancada, implementaria de pronto. A primeira dessas consistiria na manutenção do investimento nas camadas jovens, embora, desta feita, sem pretender formar cerca de 17% dos plantéis futuros do Fóculporto. A outra medida é ainda de maior importância e premência. Actualmente, Rui Oliveira e Costa representa o Sporting num debate futebolístico, com emissão televisiva e frequência semanal. Discute, supostamente defendendo o Sporting, com o gajo dos Blind Zero e um realizador demasiado alto para quem nasceu nos anos 30. Há muito que esta figura, a de Oliveira e Costa, me deixou de ofender enquanto sportinguista, passando, desde há uns tempos a esta parte, a ofender-me essencialmente enquanto bípede. Os exemplos, para os sportinguistas que se fustigam com as intervenções semanais da criatura, são imensos, mas deixo apenas um par deles. Num dos últimos programas, o homem do Benfica, a propósito não sei de quê, dizia “não haver fumo sem fogo”. Oliveira e Costa decide logo estorvar, articulando o pensamento que se segue: “Calma lá, que essa expressão do ponto de vista científico é errada. Se, por exemplo, abrires um frigorífico, tens fumo e não tens fogo. A expressão é atrasada cientificamente”. Perante a incredulidade dos presentes, Oliveira e Costa rematou com um "estou só a dizer". Um tudo-nada mais tarde, o homem do Benfica falava nas “câmaras da Sport Tv”. Oliveira e Costa, uma figura que, em programas de debate desportivo e com o ar mais sério do mundo, contrapõe a ciência a ditos e provérbios populares, resolve intervir de novo, corrigindo: “Não digas que são as câmaras da Sport Tv, porque a Sport Tv aluga as câmaras. São alugadas. Portanto, não digas que as câmaras da Sport Tv”. Oliveira e Costa foi capaz de me colocar do lado do gajo do Benfica, o que é, a todos os níveis, notável. Bravo. É isto que representa o Sporting? Nunca pensei dizer isto, mas, sem me perguntarem se me faz mais confusão ter o Oliveira e Costa a representar o Sporting ou o Grimi a representar o Sporting, eu, de tão indeciso e nauseado, creio entrar em combustão espontânea.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Porto - Jornada 22 - O Balanço Possível

Como diria o poeta, estava escrito nas estrelas que o porto se sagraria campeão. Pessoalmente, enquanto não vi o James a desembaraçar o redil montado pelo Guimarães não consegui abrir a garrafa de Champagne. Quando acordei disseram-me que tinha acontecido um jogo em Braga. Já ressacado, fui obrigado a abrir outra garrafa de Champagne em honra de Mossoró. Parei de beber há umas horas e estou susceptível a fazer balanços sobre o tempo que passou aos comandos de Villas-Boas. No fundo, como diria o poeta, quero ressalvar as estrelas que foram escrevendo este título.

Maior mérito: continuidade táctica com o legado de Jesualdo. A manutenção de um 4-3-3 permitiu que o Porto enfrentasse a super-taça e iniciasse o campeonato sem problemas de identidade de jogo. Convém no entanto assinalar algumas nuances introduzidas por AVB: maior especialização do trio ofensivo com a sistemática colocação de Hulk à direita; menor rigidez no meio campo - muito devida à capacidade de Moutinho para compensar Fernando e à dimensão atlética adquirida por Belluschi; assunção de uma assimetria na defesa com a colocação de um lateral ofensivo na esquerda e de um lateral mais conservador na direita (resta saber se esta opção foi táctica ou se resultou das crises existenciais de Fucile no início da época).
Jogadores fundamentais: Hulk, Moutinho e Falcão. Ia incluir Álvaro Pereira neste grupo mas creio o uruguaio é mais insubstituível do que fundamental. A juntar a estes três fundamentais cabe registar a solidez de outros dois: Rolando e James. Pessoas que não sabem jogar mal e que lidam bem com um regime de expectativas que lhes pede a máxima eficácia com a maior discrição possível. Transpiram serenidade e alicerçam emocionalmente o grupo.

Momentos a registar para posteridade: as conferências do miúdo; a senda goleadora de Hulk.

Momentos a rever: a incapacidade do meio campo para gizar desequilíbrios dentro do 4-3-3- aquando das noites mais desisnpiradas de Belluschi (a alternativa tem sido sempre a mudança táctica)

Pior momento: o modo como o grupo a certa altura se ressentiu das loas que a se foram tecendo à qualidade superior do futebol do Benfica. Felizmente os trabalhos forçados que Jesus sujeitou os argentinos de pequeno porte a bem da nota artística ficaram patentes em Braga: Gaintan (jogou 20 minutos), Saviola (foi substituído), Aimar (ficou a ver o jogo na Sporttv), Salvio (ficou a ouvir o relato no TVG para Madrid). Nesta jornada o espectro de um campeão com pior futebol do que o Benfica foi exorcizado. O massacre de Jesus aos músculos dos seus argentinos poderá levá-lo a sentar-se no banco do Tribunal Penal Internacional antes do fim da época. Acusação: morte artística.

terça-feira, 8 de março de 2011

Benfica - Jornada 22 - A Análise Possível do Cavalheiro Pragmático

Sempre soube ser, em todas as alturas da minha vida, um cavalheiro. Ainda sou daqueles que diz, em discurso oral, offside, keeper e corner, fruto de uma cuidada educação inglesa. Não que, de quando em vez, não enjeite uma boa dose de boçalidade requintada. Porém, é sob a áura do cavalheirismo que começo este artigo, endereçando os parabéns ao F. C. do Porto pela conquista do Campeonato Nacional da Primeira Divisão 2010/2011. O título é inteiramente justo e merecido. Uma equipa que esmaga o Benfica por 5-0 merece ganhar. Teria piada que não ganhasse, é certo. Mas merece. Portanto, glória ao vencedor e honra ao vencido que, adivinhando-se nessa condição desde muito cedo, ainda conseguiu por o vencedor em sentido durante um tempinho. Certo é que a não renovação do título do Benfica começou a desenhar-se aos cinco minutos de época, com o primeiro golo do F. C. do Porto na Supertaça. Quem compreende o Benfica na sua essência cedo se apercebeu que a coisa iria ser muito complicada.


O Benfica perde o presente campeonato por força de três grandes factores: uma arrogância monumental até ao jogo do Dragão, um keeper que, contratado para segurar pontos, nos fez perder mais dos ditos que ganhá-los e, como dizia a canção, with a little help from my friends, ajudinha essa irrelevante no cômputo geral.

No primeiro dos factores, o Benfica de início de época esteve numa crise de identidade brutal, representando-se uns furos acima do seu real valor. Por diversas vezes fez lembrar o típico empresário português espertalhão, que resolve uma dívida contraíndo outra e, sempre de sorriso nos lábios, diz que agora é que vai ser, David Luiz a lateral esquerdo e já está, é desta. Só quando o estado psicótico acabou e o Benfica regressou à terra (e ao Benfica propriamente dito) é que as coisas endireitaram.

No segundo caso, as Robertadas. E o que é uma Robertada? Uma Robertada é uma defesa aparentemente fácil para Roberto Jimenez Gago que resulta num golo escandalosamente ridículo para Roberto Jimenez Gago. Muitas aconteceram no início da época, outras não tiveram consequências no meio da dita – fosse porque o Benfica marcou sempre um ou mais golos que o adversário, fosse porque os adversários foram azelhas – outras começaram a acontecer agora (que o digam Hélder Postiga e Hugo Viana, só para referir as da semana passada). Isto é inadmíssivel ao jogador mais bem pago do plantel e que até parece ser um tipo porreiro. Valha-nos a esperança que o seu agente nos injectou quando disse “Roberto é um guarda-redes com mercado”.

O terceiro caso, as pequeníssimas ajudinhas dos amigos, têm um papel irrelevante entre o deve e o haver. Posto isto, e na esteira melancólica do Benfiquismo, a pior coisa que pode acontecer agora é o F. C. do Porto sagrar-se campeão na Luz. O conceito é já desagradável por si só, mas ainda mais incómodo fica se atendermos à incapacidade do Benfica o ter feito no Dragão o ano passado. É meu dever de cavalheiro informar que temo bem que esta conjugação matemática se possa vir a verificar.

Despindo agora a longa beca do cavalheirismo, socorro-me da assertividade do pragmatismo para analisar o desafio de ontem. Só esta figura me permite olhar, de forma sistémica, os noventa minutos em que o Benfica jogou com uma equipa chamada Sporting de Braga que é composta por jogadores emprestados do F. C. do Porto, jogadores já contratados pelo F. C. do Porto e um treinador do F. C. do Porto. Como tal, encarou este jogo como o jogo do título do F. C. do Porto e de tal forma o ganhou. Só assim se explica o espírito de rivalidade e as bolas de golfe provenientes do lado do Braga, que considerou o Benfica como o seu maior rival de todos os tempos, atributo esse que não deve ser retirado ao Vitória de Guimarães. Mais pragmático que isto? Duvido.

A vitória do F. C. Porto ficou a dever-se exclusivamente a um instante decisivo e a dois dotes. O instante decisivo acontece, claramente como a água, quando Alan faz uma falta a Javi Garcia – uma entrada duríssima, com uma cotovelada nas costelas do espanhol – e Garcia responde no calor da jogada. De acordo com todos e mais alguns critérios legais, espirituais e metafísicos, a jogada deveria ter sido sancionada com:a) falta a favor do Benfica e cartão amarelo a Alan e, b) amarelo a Javi Garcia por resposta. Ainda que assim não se entendesse, seria admissível o seguinte cenário: a) falta a favor do Benfica e cartão amarelo a Alan e, b) vermelho a Javi Garcia por resposta, sendo esta considerada agressão. A coisa, porém, não foi vista assim: Alan faz falta e agride, Javi responde. Javi é expulso e a falta favorece a equipa da casa. Genial.

No que concerne aos dotes, estes são, sem dúvida, os dotes teatrais do jogador Alan e aos dotes bailarinos do keeper Roberto. Relativamente aos primeiros, estes deveriam valer-lhe entrada directa na CTB – Companhia de Teatro de Braga: Alan leva carga na zona abdominal, a ela se agarra em sentido de dor, cai no chão como uma primadona com uma quebra de açúcar, rolando sobre o seu próprio corpo em trezentos e sessenta graus. Quando regressa à frontalidade, a dor diferida de Alan terá sido irradiada do abdómen para a maçã de adão, zona corporal para onde as mãos do actor se dirigem, e que agarram em grito mudo e contorsão dolorosa a fazer pandã com a obra prima de Rivaldo no Japão-Coreia 2002. Genial.

Quanto à Robertada da noite, nada a dizer. Mal a vi, dirigi-me ao armário dos chás e trabalhei uma infusão de dois litros de chá de erva de S. Roberto, tamanha era a azia com que estava.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sporting - Jornada 21

Arrastando-se naquela que será quase certamente a sua pior época de sempre ao nível de futebol sénior, o Sporting peleja apenas pela conservação do estatuto de clube português - e, já agora, terceiro europeu - com mais participações em provas da UEFA. Mantendo esse estatuto, manterá também certamente aquele de ser o único clube do planeta futebolístico a, em toda a sua história, ter terminado a liga interna nos cinco primeiros lugares. Não é coisa pouca, embora a luta pela manutenção do terceiro posto na actual liga o seja, claramente. Esta miserável - e ao mesmo tempo importantíssima - luta conheceu mais um revés na jornada vinte e uma, com o desaire aos pés do Nacional madeirense, do nevoeiro insular e dum nosso avançado cuja qualidade de maior destaque, quiçá já a única, é aquela de ajudar os guarda-redes adversários a serem o melhor em campo. Confesso que vi o jogo da Madeira aos solavancos. A culpa foi do nevoeiro, que me lembra sempre duas coisas: uma valorosa película de Carpenter e um golo dum apanha-bolas, no Estádio das Antas – um tento que, sem saber, se tornaria na metáfora perfeita para os anos de marosca subterrânea que aí vinham. Em ambos os casos, o nevoeiro evoca então em mim o terror. Terror esse que, no passado Domingo, ia sendo agudizando sempre que a realização televisiva mostrava a dupla que orientava o Sporting: Alberto Cabral e Sérgio Cruz. Paulo Sérgio, um ex-avançado suplente de equipas que lutam para não descer, já me fizera olhar de forma menos superficial para os avançados suplentes das equipas que lutam para não descer. Actualmente, não olho para um Pires, do Portimonense, ou para um Saulo, do Rio Ave, da mesma forma. Olho, agora, com considerável dose de temor, precisamente aquele que marca a eventualidade de essas pessoas poderem vir treinar o Sporting; visto que, com Paulo Sérgio, o precedente se abriu para todo o sempre. Desde o passado Domingo que terei de olhar, também, para os defesas das equipas que lutam para não descer com esse mesmo temor. Após Carlos Carvalhal, durante uns meses, tivemos agora Alberto Cabral e Sérgio Cruz, durante noventa minutos. Já não para ignorar. O Sporting, em poucos meses, conseguiu ser orientado por ¾ daquela que se pode considerar a defesa protótipo das equipas que, nos anos noventa, iam a Alvalade para tornar o futebol num desporto hediondo. Falta apenas um defesa-direito. Se, entretanto, o Rui Neves ou o Margarido orientarem o Sporting, temo, então sim, pelo nosso fim. Antigamente eu via um Sérgio Lomba a dar bordoada em Alvalade e não me passava pela cabeça que, algum dia, em qualquer circunstância, aquela criatura pudesse treinar o Sporting. Isso, infelizmente, mudou.

Já ontem, o Sporting foi ao Estádio da Luz, tentar manter viva a esperança de conquista dum título. Essa esperança, na minha óptica, manteve-se bem viva até determinado momento. Não se começou a esfumar quando Jorge Sousa, numa interpretação invertida da lei da vantagem, decide mandar parar um perigoso contra-ataque verde-e-branco para assinalar uma falta de Javi Garcia sobre Matías. Nem quando o mesmo Jorge Sousa se torna, por momentos, no Martins dos Santos e tudo é digno de cartão amarelo, com o azar desse tudo ser exclusivo dos jogadores de verde. Nem quando Rui Patrício decide oferecer um par de oportunidades de golo ao Benfica. Não. Vi a presença na final da Taça da Liga fugir quando João Pereira pede a substituição. Pouco depois, as câmaras focam Abel a preparar-se para a luta. À pressa, vestiu uma camisola do Sporting, pediu a José Lima para lhe guardar a aliança e atilou-se minimamente. Manteve, porém, o ar de quem tinha acabado de ser acordado no interior dum carro estacionado no parque do Estádio da Luz. Alguém a quem tinham batido no vidro do carro e dito “Abel, fazes ali uma perninha, pá?”. Já vi pessoas a fugir dum incêndio que estavam mais preparadas para entrar em campo do que o Abel, ontem. Um Abel desperto já acumula na sua pessoa uma série de pressupostos que lhe deviam impossibilitar uma carreira no Sporting ou, inclusive, no futebol inteiramente profissional. Abel encara todo e qualquer adversário como se todos eles fossem o George Best. Seja o ex-Paços Edson, o Giggs, o Bruno Ribeiro, o Nani, o Fajardo, o Ivanildo ou o Franco Jara, todos eles são, para Abel, o George Best. Por isso, Abel exerce uma peculiar marcação em que lhes concede espaço suficiente para uma avó estacionar um camião cisterna, aproximando-se do adversário apenas quando este tem a bola perfeitamente controlada. Enquanto cobre o espaço que deu ao adversário – normalmente é o espaço que medeia o central do Sporting que joga pelo lado direito e a linha lateral -, Abel faz vários movimentos de cabeça, olhando inúmeras vezes para o local que está a abandonar. Abel quer, com isto, dar a entender que está a perceber o posicionamento dos colegas e adversários, preparando assim a abordagem à bola da melhor forma. Nunca na vida. Percebe-se perfeitamente que este movimento demonstra apenas a saudade do lugar que deixou e o terror que representa o duelo iminente com o George Best da ocasião. Como se isto não bastasse, Abel ainda aborda o lance com as mãos atrás das costas, uma posição que, como todos sabemos, nos permite ter a coordenação motora nos píncaros. E começava aí o que se previra desde a entrada de Abel em campo.

Benfica - Jornada 21 + Taça da Liga: o Eterno Retorno

Afastei-me da filosofia de Nietzsche no final da época de 1994/1995. Nessa altura, o Benfica era treinado por uma pessoa que então se assemelhava ao filósofo alemão e que estava a dar cabo de uma equipa campeã nacional, afastando os enormes Isaías e Vítor Paneira, entre outros, e trazendo, também entre outros, nomes como Clóvis, Paulão, Nelo, Tavares e Mario Stanic que, mais tarde, dispensaria por crer que “não tinha valor para jogar no Benfica”. Ora bem, foi nessa altura em que tive que fazer uma escolha penosa: ou Nietzsche – por encontrar nele a projecção física do anti-treinador do Benfica – ou o Benfica. Evidentemente escolhi Benfica e sofri como anos a fio como um cão até Jesualdo Ferreira ter sido demitido após conseguir a proeza de perder contra o Gondomar em casa, para a Taça de Portugal. De aí em diante –de Camacho em frente- a coisa tem-se vindo a recompor paulatinamente. E eu, paulatinamente também, lá vou voltando a Freddie Nietzsche. A primeira vez que assumi publicamente este regresso foi precisamente quando Rui Costa voltou ao Benfica e o Prof. Neca regressou ao Desportivo das Aves: cumpria-se mais uma vez, no futebol, o mito do Eterno Retorno Nietzschiano que nos diz, em linhas genéricas, que isto tudo é uma quantidade de ciclos históricos, naturais, sociais e futebolísticos que se repetem até ao infinito. Rui Costa voltará sempre, Neca também.

Ora, os dois últimos desafios do Benfica permitem-nos, com relativa segurança, afiançar que estamos na presença de fortes índices de Eterno Retorno: contra o C. S. Marítimo, o Eterno Retorno de Fabinho aos braços do Benfica, o Eterno Retorno de um Benfica que acredita até ao fim. O Eterno Retorno do Inferno da Luz. Contra o Sporting, o Eterno Retorno genérico de mais uma vitória do Benfica e de mais uma não vitória do Sporting. Parafraseando um treinador do Benfica já aqui citado, tudo Eternos Retornos perfeitamente normais. Já com alguma surpresa assisto ao facto de o normal Eterno Retorno da vitória ao Sporting se traduzir num surpreendente Eterno Retorno de uma segunda-vitória-consecutiva-no-último-minuto em três dias. Coisa rara no mundo dos Eternos Retornos. Porém, se me detiver nesta fenomenologia no jogo de ontem, fácil será concluir que o dito esteve cheio de Eternos Retornos: em primeiro lugar, o Eterno Retorno às Robertadas, com mais um frango clamoroso. Vá que a coisa se compôs a seguir. Depois, estava o Benfica a perder e entra Anderson Polga. A simples entrada do central foi suficiente para que começasse a –permitam-me a expressão- cheirar a Eterno Retorno de qualquer coisa. Polga entra, está lá um bocadinho e zás, faz penalty. Eterno Retorno às Polguices, vem aí golo do Benfica. Quando vi Cardozo a correr para a bola, lembrei-me do Eterno Retorno ao erro crasso de por o Cardozo a marcar penalties. Bingo. Certo que a seguir ainda estava o João Pereira a abraçar Rui Patrício pelo feito e já o jogo estava empatado. Eterno Retorno de Tacuara aos golos.

Posto isto, e descontando alguns mini-Eternos Retornos que foram acontecendo aqui e acolá (a lesão de Aimar é bom exemplo), o jogo fica marcado por duas profundas linhas de reflexão: uma de fézada e outra em que a noção de Eterno Retorno se funde com a ideia de fézada. Ambas provando, com clareza, que o futebol não é só técnico-táctica, mas é também muito de construção filosófica. Comecemos pela fézada, um conceito que me é particularmente grato e a cujo estudo muitas horas tenho dedicado: fácil foi de constatar a fézada com que o Sporting estava em decidir o jogo nos penalties. Tanta que a partir dos setenta minutos já só defendia. O que é certo é que esta dita fézada encontrava correspondência inversamente proporcional na contra-fézada que o Benfica (e o seu universo de seguidores) tinha em que se fosse a penalties ia perder, fundamentando ontologicamente este temor na Final de Estugarda em 1988 e na Supertaça 1994/1995 em que o Benfica, estando a ganhar nos penalties ao F.C. do Porto, acaba por perder sem glória, num volte-face patético. Posto isto, entramos no momento capital do jogo: aquele em que a ideia de fézada se funde na noção de Eterno Retorno Nietzschiano: minuto 84. O Sporting é forçado a substituir João Pereira por Abel. Ao vê-lo entrar, lembrei os colossais ensaios lógico-futebolísticos que lhe são consagrados por J. Salinas neste mesmíssimo espaço e, associando conceitos, pensei que apenas em Abel estaria a única possibilidade de vitória do Benfica neste jogo: fosse num auto-golo, num penalty ou num qualquer ficar-nas-covas. Pensei também que, cumprindo-se esta conjectura, um duplo Eterno Retorno se verificaria: segunda vitória em três dias nos últimos suspiros de jogo, segunda eliminação consecutiva do Sporting nos últimos instantes do desafio.

Ante a confirmação da legalidade do seu golo, Javi Garcia terá pensado “quem foi a alma caridosa que me pôs em jogo?”. A resposta tem a fusão total entre a minha fézada e o Eterno Retorno de Friederich Whilhelm Nietzsche: foi o Abel, o lateral direito com nome de guarda. Posto isto, regressei a casa e inscrevi-me na Associação Internacional de Nietzschianos de Bancada.

terça-feira, 1 de março de 2011

PORTO - JORNADA 21- James Rodriguez: o 10 de Merleau-Ponty

Raramente me debruço nos meandros da táctica fundado na ingénua noção de que a socialização do futebol implica um diálogo com realidades que lhe são exteriores: a poesia, o bailado, os dirigentes do Sporting. Mas a verdade é que dou por mim demasiadas vezes a assistir com  interesse aos movimentos auto-referenciais de um idioma que me é desconhecido – no caso um canal de jardinagem búlgaro da minha Tvcabo –, tanto que tenho dificuldade em compreender que as pessoas dotadas de corpos se recusem imergir no mundo intrincado das basculações tangentes à circulação do médio interior.

Sejamos francos, como dizem estes, ou como dizia o bom do Merleau-Ponty, o facto de vivermos através de corpos, querendo ou não, estabelece uma comunalidade no modo como encaramos o fenómeno da vida: todos ficamos esventrados ao assistir à lesão do Emídio Rafael, consternados com o penteado do Fábio Coentrão, deliciados a ver o James Rodriguez a jogar a 10, divertidos com a a candidatura de Dias Ferreira. O facto, meus caros, é que o Porto tem um problema. Chama-se James Rodriguez e até ao passado sábado era apenas um puto de 19 anos que actuava na ala com a maturidade e com a apetência para repentismos de um Figo aos 37 anos.

 Se no caso do Figo o maduro estava na inteligência para esconder que os arranques o começaram abandonar quando abandonou a Catalunha e se aburguesou em Madrid, já no caso de James cruzam-se dois factos que nada devem à extrema sabedoria do anti-herói da selecção portuguesa – o jogador que muitos sportinguistas viam (gargalhada) a acabar a carreira no Sporting por amor ao clube (não há pequenos almoços grátis e assim).
Mas voltemos ao James. Primeiro facto: o homem é precoce nas artes de não errar e dentro daquela serenidade toda – aquilo que em cima chamámos maturidade - existe o bem escondido pânico de perder uma bola. É como uma pessoa tímida que cumprimenta pro-activamente toda a gente quando chega ao café para ter completo domínio sobre um quadro de interacções cuja vida própria a ameaça.

Assim, deslocado para uma ala James não é um extremo desequilibrador clássico, longe de primar pelas perfídias do 1 para 1 James desequilibra pelo modo como mantém a circulação de bola em zonas do campo tradicionalmente associadas ao labor especialista do drible para a linha. Em segundo lugar, em inteira articulação com o pânico de ajudar a equipa a ter mãos de 60% de posse bola, vem aquilo que constatámos no sábado com a mudança táctica operada por Villas-Boas: James é um número 10 e toda a sua experiência junto à linha é uma tematização coreografada da experiência do exílio. Qual judeu ortodoxo de longas barbas a passear-se pelo Marais entre esplanadas pejadas de gays musculados, James comporta-se a extremo com os rituais originais de um distribuidor de jogo.

Sendo com 19 anos melhor extremo do que muitos virtuosos da finta, o jogo de James vai exigir a prazo uma equipa que lhe dê o vértice avançado do losango. Jesualdo abdicou temporariamente do 4-3-3 por Anderson, Villas-Boas já percebeu que a definição táctica do futuro do Porto passa assunção de James a 10. Mais do que um 10 fora do sítio, James é um 10 porque que aprendeu a comunicar com o mundo num corpo deslocado do seu espaço de conforto.