
Após um período de pouquidade presencial – terei estado em coma induzido, reflectindo sobre o Sporting do segundo milénio - eis-me de regresso. No campo de futebol, nada de novo a registar. Nos últimos cinco desafios, o Sporting, um clube que, segundo os analistas industriados, tem um ponta-de-lança em grande forma, atingiu a assombrosa totalidade de um golo marcado. Um feito ao nível da selecção de San Marino em qualquer fase de qualificação que corra especialmente mal. O ponta-de-lança em grande forma, na melhor forma da sua carreira, apresenta mais um golo na Liga do que Nuno Gomes e Otamendi, mais dois do que um trinco líbio do Beira-mar e mais três do que Abel Ferreira, um atleta cuja única ligação ao mundo do futebol profissional devia começar e terminar na partilha de apelido com Eusébio da Silva Ferreira. Defrontando, ainda que sem maçar por aí além, a União Desportiva de Leiria, SAD, Hélder Postiga deu mais um conseguido workshop, com duração de noventa minutos, de como não ser um avançado. E, como não poderia deixar de ser, o fora de jogo - o elemento do jogo de futebol que, junto com os remates disparatados a quarenta metros da baliza e cabeceamentos que, na prática, não passam de amortecimentos para o guardião adversário, Postiga mais aprecia e pratica – foi um dos conteúdos abordados. É uma clara especialidade e será sempre de bom-tom lembrar os maldizentes de Postiga que é graças a ele que o Sporting, conquanto já urinando fora da competição, marca ainda presença nos tops estatísticos da Liga Europa (precisamente, está bom de ver, no top-1 de jogadores mais vezes apanhados em fora de jogo). Além de ter o instinto matador dum coala morto, Postiga tem, como já fui dizendo por aqui e em gritarias em vários cafés, excelente imprensa, sendo que, no seguimento dessa relação, se insiste em confundir o “dar o litro” com "estar sempre com um ar cansado e, de quando em vez, fazer uns carrinhos desconchavados a metros do defesa que está a aliviar uma bola". Ainda no encontro que nos opôs à União de Leiria, tivemos oportunidade, por volta do minuto décimo nono, de assistir a uma tentativa, por parte de Yannick Djaló, de chapéu que define qualquer jogador e, até, campeonato. Portugal próximo de ter três equipas na Champions de 2012/13? É a UEFA ter acesso imagético àquela tentativa de chapéu e até o campeão nacional de 2011/12 terá de jogar umas 15 pré-eliminatórias.
Da campanha eleitoral que visa o momento eleiçoeiro que aí vem, confesso a minha dificuldade em optar claramente por um dos candidatos. Não tenho a certeza que, por exemplo, Bruno de Carvalho não se tenha candidatado apenas para ter oportunidade de conhecer o van Basten. O seu fundo de 50 milhões até tem sido associado à máfia russa, mas isso não me choca nada, tratando-se duma organização de que, não por acaso, me lembro (sobretudo dos castigos a traidores) sempre que o Djaló domina uma bola com a mesma eficácia que a minha parede da sala. Por seu turno, Dias Ferreira bateu com a cabeça no copo verde que tinha à sua frente no programa “O Dia Seguinte” e acha que Paulo Futre é um símbolo de sportinguismo. Simão e João Moutinho eram os nomes seguintes, se o Futre não pudesse, era, José Eugénio? Enfim. Abrantes Mendes tem um certo je ne sais quoi de Lazlo Boloni, o que, mental e automaticamente, remeterá a sua figura para “ser campeão à primeira” ou “levar 4-0 do Paços”. Depende do ângulo. Aparenta ainda não comprar um fato novo desde o México 86, mas tudo indica que, em compensação, lave a seco os que tem. Finalmente, de Abrantes Mendes, é de referir que não tem treinador confirmado, tampouco jogadores, relevando que pretende deixar o Sporting exactamente como está: sem treinador e sem jogadores. Também em termos físicos, um outro candidato, Pedro Baltazar, evoca-nos um híbrido entre Emir Kusturica e Paolo Maldini. O seu treinador é Zico, reforçando a clara tendência eleitoral de reforçar o Sporting com um treinador que tenha sido um jogador do carago; o que faz todo o sentido, depois de, com Paulo Sérgio, termos percebido que ter sido suplente do Estoril Praia no final da década de 90 não é sinónimo de treinador de jeito. Se um jogador medíocre deu num treinador indutor de vómito, há que virar o disco e, nesse sentido, aí temos Zico, van Basten e Rijkaard, falando-se ainda em Balakov (Abrantes Mendes) e, a um nível bem menos do carago, Domingos (Godinho Lopes). Se se tivesse mantido na corrida ao cadeirão, estou em crer que Zeferino Boal apresentaria Maradona como treinador. Por fim, Godinho Lopes tem sido acusado de ser o candidato da continuidade e, mais do que me lembrar de genuflexões à banca, continuidade traz-me à memória Hélder Postiga, Grimi, Abel e Djaló, entre outros. Não é um bom cartão-de-visita.
Indeciso que estou, reconheço aqui que optarei pela lista que, até sábado, prometer tomar duas medidas que eu, enquanto candidato de bancada, implementaria de pronto. A primeira dessas consistiria na manutenção do investimento nas camadas jovens, embora, desta feita, sem pretender formar cerca de 17% dos plantéis futuros do Fóculporto. A outra medida é ainda de maior importância e premência. Actualmente, Rui Oliveira e Costa representa o Sporting num debate futebolístico, com emissão televisiva e frequência semanal. Discute, supostamente defendendo o Sporting, com o gajo dos Blind Zero e um realizador demasiado alto para quem nasceu nos anos 30. Há muito que esta figura, a de Oliveira e Costa, me deixou de ofender enquanto sportinguista, passando, desde há uns tempos a esta parte, a ofender-me essencialmente enquanto bípede. Os exemplos, para os sportinguistas que se fustigam com as intervenções semanais da criatura, são imensos, mas deixo apenas um par deles. Num dos últimos programas, o homem do Benfica, a propósito não sei de quê, dizia “não haver fumo sem fogo”. Oliveira e Costa decide logo estorvar, articulando o pensamento que se segue: “Calma lá, que essa expressão do ponto de vista científico é errada. Se, por exemplo, abrires um frigorífico, tens fumo e não tens fogo. A expressão é atrasada cientificamente”. Perante a incredulidade dos presentes, Oliveira e Costa rematou com um "estou só a dizer". Um tudo-nada mais tarde, o homem do Benfica falava nas “câmaras da Sport Tv”. Oliveira e Costa, uma figura que, em programas de debate desportivo e com o ar mais sério do mundo, contrapõe a ciência a ditos e provérbios populares, resolve intervir de novo, corrigindo: “Não digas que são as câmaras da Sport Tv, porque a Sport Tv aluga as câmaras. São alugadas. Portanto, não digas que as câmaras da Sport Tv”. Oliveira e Costa foi capaz de me colocar do lado do gajo do Benfica, o que é, a todos os níveis, notável. Bravo. É isto que representa o Sporting? Nunca pensei dizer isto, mas, sem me perguntarem se me faz mais confusão ter o Oliveira e Costa a representar o Sporting ou o Grimi a representar o Sporting, eu, de tão indeciso e nauseado, creio entrar em combustão espontânea.