quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Jornada 6 - FC Porto - A decadência de Otamendi

Em 1835 ficou célebre o o “caso Pierre Rivière”. Pierre, chamemos-lhe assim, era na altura um jovem de 20 anos que ficou conhecido por ser um pouco nervoso, tanto assim que certa tarde, porventura chateado com as previsões meteorológicas para o fim-de-semana, degolou a mãe grávida, a irmã e o irmão. Pierre viria a tornar-se muito famoso, universalmente odiado, tema de acesas polémicas e um estudo de caso para reflexões sobre a condição humana, sobre a moral e sobre os limites do poder disciplinador da modernidade. Vivemos em tempos diferentes, ao mesmo tempo que os media podem ajudar à popularização de um homem odiável, tantos são os homens odiáveis publicitados que acabamos por não conseguir odiar ninguém com a dedicação com que Pierre foi mimado.

Se quiséssemos encontrar uma personagem à altura de Pierre Rivière em grau de infâmia – a fama dos maus - teríamos que lembrar, talvez, alguém como Olegário Benquerença. A história não se repete mas sempre vai rimando. Provas? As conferências de imprensa dos órgãos sociais do Benfica de há umas semanas são um momento singular que aconselho a qualquer o jovem historiador. Há muito que a ideia, marcadamente moderna, que todo o ser humano pode ser reabilitado não era desafiada, tão cenicamente, pela fúria colectiva em esquartejar um semelhante circunstancialmente  acusado de ter feito asneira.

No passado fim-de-semana, após o empate com o Guimarães, Villas-Boas teve o ensejo de imitar os apelos de Luiz Nazaré à extinção de várias espécies por causa de um resultado menos bem conseguido. Dias depois, Villas-Boas fez um mea culpa, reconhecendo que o penalty de que acusou Carlos Xistra afinal não aconteceu. A minha convicção é que Villas-Boas, mais do que reconhecer a inexistência do penalty, quis reconhecer a sua incapacidade algum dia para rasgar as vestes ganindo indignações metafísicas com a convicção com que o fizerem, sucessivamente, Rui Costa, Jorge Jesus, Luís Filipe Viera, Luís Nazaré e Vítor Pereira. Aquilo de escolher os homens que hão-de atravessar o rio Aqueronte é coisa de Deuses, e Villas-Boas, sabiamente, também não se quis armar em Dante (ou em Rui Costa).

Ao contrário daquilo que o mundo Benfiquista conseguiu fazer a Olegário Benquerença, transformando-o no degolador parricida deste início de século, Villas-Boas teve uma atitude a que nunca tinha assistidoque em décadas de carreira como adepto: um treinador em actividade reconhecer que errou num julgamento, que não está inteiramente preparado para transformar o futebol na inquisição e que, não havendo argumentos de qualidade, de nada vale montar o circo da execução pública do árbitro a bem do espírito de grupo. Villas-Boas, coitado, anda convencido que a qualidade dos argumentos importa, mostra igualmente, coitado, que é incapaz de ter a voracidade aniquiladora para destruir resolutamente o carácter de outro homem, ainda que de um degolador se tratasse. Até Falcão hesita antes das suas estocadas. O recuo de Villas-Boas prova que só Pierre Rivière e os órgãos sociais do Benfica são capazes de ir até ao fim sem pestanejar.

Marcadores:

3 Comentários:

Anonymous daniel disse...

"(...)como sabemos o único álibi no futebol para que a decadência não seja considerada patética." por acaso, acho que é exactamente o contrário. as drogas fornecem o único álibi para que a decadência seja considerada patética...

é que patética deriva do latim pattetiaus ou algo que o valha e significa, hoje em dia, comovente. é desta palavra que deriva a inglesa pathetic, por exemplo.

por outro lado, pateta deriva do espanhol... e em português significa o que todos sabemos. a carreira do pena é pateta, mas não patética, na minha opinião.

30 de setembro de 2010 às 16:45  
Blogger Bruno Sena Martins disse...

Obrigado, Daniel, anda a usar mal a palavra. Abraço

1 de outubro de 2010 às 09:52  
Anonymous Joel Marques disse...

Pelo menos o Otamendi poupa-nos ao penteado patético do Pena(no sentido em que fazia chorar, de tanto rir). Manjericos, para mim, só no São João.

1 de outubro de 2010 às 14:37  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial