Sporting - Jornada 6
Ao minuto dez do encontro do passado domingo, Hélder Manuel Marques Postiga, em excelente posição, realizou a mais despropositada tentativa de chapéu a um guarda-redes de que há memória desde o último quartel do século XIX. Ainda a bola não tinha chegado à inevitável bancada, já eu me recordava de facto óbvio, conquanto bastas vezes esquecido: em toda a história da civilização, não existem registos de alguma vez um indivíduo ter dito “ah, ela é um bocadinho forte” e, pouco depois, ter surgido uma elegante mulher que, por razões não explicadas, tem em si a força física necessária para prescindir daquele martelinho de partir sapateira ou para empurrar a própria viatura até à próxima descida, sempre que fica sem bateria porque se chegou a casa perdido de bêbedo e os faróis acabaram por ficar ligados doze horas. Não, nunca é isto que acontece. Aparece uma gorda, apenas e só. Bom, supostamente, e segundo uma considerável franja de entendidos, o Sporting actual sofre de um “défice de concretização”, e, ora, da mesma forma que num “ela é um bocadinho forte”, nos aparece uma gorda, toda gorda, qualquer “défice de concretização” é expressão que comprova, laboriatorialmente, a existência de “avançados cepos”. Também apenas e também só. E eu, vá lá ver, até compreendo que, numa era em que, enfim, a informação, evidências e raciocínios lógicos não eram os que são hoje, uma caravela saia de Lisboa em direcção à Índia sem laranjas ou sumo Tang no porão, e, ali ao largo de Angola, a tripulação desate toda a ter escorbuto. Tenho mais dificuldade para entender por que raio o Sporting, sabendo de antemão que um “défice de concretização” seria sempre uma chatice a todos os níveis, achou que, ao apresentar avançados como Postiga ou Djaló, não iria ter problemas de concretização. O Sporting parece que quer chegar de Caravela à Índia (o título), mas encheu a despensa de presuntos (Postiga) e fiambre (Djaló), em vez duns sumos, laranjas, limões, e espera não apanhar escorbuto (défices de concretização). É que, concedo, até podem existir avançados de valor que atravessem marés de azar. Não é, está mais que visto, o caso. Há quem confunda marés de azar com consequências lógicas. Quando o Djaló, com a sua técnica pré-revolução industrial, domina uma bola com as canelas e esta sai pela linha lateral, ou vai parar aos pés do adversário, isso não é azar. É consequência lógica. Quando o Postiga recebe a bola em boa posição, roda com extrema dificuldade sobre si mesmo, aguenta, com ainda mais dificuldade, a pressão dum defesa que ele próprio, ao engonhar tudo, criou, e depois perde a bola ou a passa trinta metros para trás, esfumando em absoluto qualquer possibilidade de sequer se rematar à baliza, não é maré de azar. É consequência lógica.É inegável que, ao longo da sua história, o Sporting tem contado com alguns avançados essencial e especialmente ridículos. E, em teoria, o clube poderia, em determinados momentos preconizadores do Apocalipse, ter alinhado com duplas ofensivas como Forbs/Rui Maside, João Luís II/Lima, Missé-Missé/Paulo Alves ou Krpan/Fumo. Porquê apenas em teoria? Porque, pese embora estes jogadores fizessem parte dos respectivos plantéis, na prática, estes pesadelos nunca se concretizaram. Estas possíveis duplas sempre cumpriram um papel funcionalmente terapêutico. Passo a explicar. Por muito mau que fosse o que se estivesse a ver em campo, em termos ofensivos, os adeptos sabiam que existia sempre uma possibilidade pior. Deixo o exemplo: quando, na época noventa e seis/noventa e sete, os sportinguistas viam César Ramirez fazer um mau passe para um Hugo Porfírio que, na tentativa de chegar à bola, fazia uma entrada a pés juntos aos dois laterais da equipa adversária, exasperavam, é certo, mas podiam sempre desabafar um “bem, ao menos não estamos a jogar com o Missé-Missé e o Paulo Alves na frente”. E essa realidade é reconfortante. Saber que se podia estar bem pior será sempre uma catarse de algum calibre. A questão, actualmente, é que o Sporting alinhou com a sua dupla de pesadelo, aquela que só deve existir no plano teórico, para assustar os sportinguistas, para lembrá-los que poderiam estar a sofrer bem mais do que estão. Postiga e Djaló em campo, em simultâneo, é mostrar-nos o inferno. Quando nós, sportinguistas, a querer o inferno, o queremos apenas como ameaça teórica. A tal ameaça reconfortante. Como quando temos de nos amanhar com uma “mulher um bocadinho forte”, mas sabemos que havia a possibilidade de nos ter caído na sopa a amiga dela, uma “mulher ainda um bocadinho mais forte”. Paulo Sérgio, não nos esfregue o inferno na cara. Diga-nos só que o tem no banco, para a gente achar que, nem que seja por comparação, o que está no relvado é um paraíso. Obrigado.
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