JORNADA 7 - FC PORTO - Pierre Rivière em Guimarães
Em 1835 ficou célebre o “caso Pierre Rivière”. Pierre, chamemos-lhe assim, era na altura um jovem de 20 anos que ficou conhecido por ser um pouco nervoso, tanto assim que certa tarde, porventura chateado com as previsões meteorológicas para o fim-de-semana, degolou a mãe grávida, a irmã e o irmão. Pierre viria a tornar-se muito famoso, universalmente odiado, tema de acesas polémicas e um estudo de caso para reflexões sobre a condição humana, sobre a moral e sobre os limites do poder disciplinar da modernidade. Vivemos em tempos diferentes, ao mesmo tempo que os media podem ajudar à popularização de um homem odiável, tantos são os homens odiáveis publicitados que acabamos por não conseguir odiar ninguém com a dedicação com que Pierre foi mimado.
Se quiséssemos encontrar uma personagem à altura de Pierre Rivière em grau de infâmia – a fama dos maus - teríamos que lembrar, talvez, alguém como Olegário Benquerença. A história não se repete mas sempre vai rimando. Provas? As conferências de imprensa dos órgãos sociais do Benfica de há umas semanas são um momento singular que aconselho a qualquer jovem historiador. A ideia, marcadamente moderna, segundo a qual todo o ser humano pode ser reabilitado, há muito que não era tão desafiada pela fúria colectiva em esquartejar um semelhante (no caso um árbitro circunstancialmente acusado de ter feito asneira).
No passado fim-de-semana, após o empate com o Guimarães, Villas-Boas teve o ensejo de imitar os apelos de Luiz Nazaré à extinção de várias espécies por causa de um resultado menos bem conseguido. Dias depois, Villas-Boas fez um mea culpa, reconhecendo que o penalty de que acusou Carlos Xistra afinal não aconteceu. A minha convicção é que Villas-Boas, mais do que reconhecer a inexistência do penalty, quis reconhecer a sua incapacidade para algum dia para rasgar as vestes ganindo indignações metafísicas com a convicção com que o fizerem, sucessivamente, Rui Costa, Jorge Jesus, Luís Filipe Viera, Luís Nazaré e Vítor Pereira. Aquilo de escolher os homens que hão-de atravessar o rio Aqueronte é coisa de Deuses, e Villas-Boas, sabiamente, também não se quis armar em Dante (ou em Rui Costa).
Ao contrário da tragédia que o mundo Benfiquista conseguiu montar a Olegário Benquerença, transformando-o no degolador parricida deste início de século, Villas-Boas teve uma atitude a que nunca tinha assistidoque em décadas de carreira como adepto: um treinador em actividade reconhecer que errou num julgamento, que não está inteiramente preparado para transformar o futebol na inquisição e que, não havendo argumentos de qualidade, de nada vale montar o circo da execução pública do árbitro a bem do espírito de grupo. Villas-Boas, coitado, anda convencido que a qualidade dos argumentos importa, mostra igualmente, coitado, que é incapaz de ter a voracidade aniquiladora para destruir resolutamente o carácter de outro homem, ainda que de um degolador se tratasse. Até Falcão hesita antes das suas estocadas. O recuo de Villas-Boas prova que só Pierre Rivière e os órgãos sociais do Benfica são capazes de ir até ao fim sem pestanejar.
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