sexta-feira, 8 de outubro de 2010

JORNADA 7 - FC PORTO - Pierre Rivière em Guimarães

Em 1835 ficou célebre o “caso Pierre Rivière”. Pierre, chamemos-lhe assim, era na altura um jovem de 20 anos que ficou conhecido por ser um pouco nervoso, tanto assim que certa tarde, porventura chateado com as previsões meteorológicas para o fim-de-semana, degolou a mãe grávida, a irmã e o irmão. Pierre viria a tornar-se muito famoso, universalmente odiado, tema de acesas polémicas e um estudo de caso para reflexões sobre a condição humana, sobre a moral e sobre os limites do poder disciplinar da modernidade. Vivemos em tempos diferentes, ao mesmo tempo que os media podem ajudar à popularização de um homem odiável, tantos são os homens odiáveis publicitados que acabamos por não conseguir odiar ninguém com a dedicação com que Pierre foi mimado.

Se quiséssemos encontrar uma personagem à altura de Pierre Rivière em grau de infâmia – a fama dos maus - teríamos que lembrar, talvez, alguém como Olegário Benquerença. A história não se repete mas sempre vai rimando. Provas? As conferências de imprensa dos órgãos sociais do Benfica de há umas semanas são um momento singular que aconselho a qualquer jovem historiador. A ideia, marcadamente moderna, segundo a qual todo o ser humano pode ser reabilitado, há muito que não era tão desafiada pela fúria colectiva em esquartejar um semelhante (no caso um árbitro circunstancialmente  acusado de ter feito asneira).

No passado fim-de-semana, após o empate com o Guimarães, Villas-Boas teve o ensejo de imitar os apelos de Luiz Nazaré à extinção de várias espécies por causa de um resultado menos bem conseguido. Dias depois, Villas-Boas fez um mea culpa, reconhecendo que o penalty de que acusou Carlos Xistra afinal não aconteceu. A minha convicção é que Villas-Boas, mais do que reconhecer a inexistência do penalty, quis reconhecer a sua incapacidade para algum dia para rasgar as vestes ganindo indignações metafísicas com a convicção com que o fizerem, sucessivamente, Rui Costa, Jorge Jesus, Luís Filipe Viera, Luís Nazaré e Vítor Pereira. Aquilo de escolher os homens que hão-de atravessar o rio Aqueronte é coisa de Deuses, e Villas-Boas, sabiamente, também não se quis armar em Dante (ou em Rui Costa).

Ao contrário da tragédia que o mundo Benfiquista conseguiu montar a Olegário Benquerença, transformando-o no degolador parricida deste início de século, Villas-Boas teve uma atitude a que nunca tinha assistidoque em décadas de carreira como adepto: um treinador em actividade reconhecer que errou num julgamento, que não está inteiramente preparado para transformar o futebol na inquisição e que, não havendo argumentos de qualidade, de nada vale montar o circo da execução pública do árbitro a bem do espírito de grupo. Villas-Boas, coitado, anda convencido que a qualidade dos argumentos importa, mostra igualmente, coitado, que é incapaz de ter a voracidade aniquiladora para destruir resolutamente o carácter de outro homem, ainda que de um degolador se tratasse. Até Falcão hesita antes das suas estocadas. O recuo de Villas-Boas prova que só Pierre Rivière e os órgãos sociais do Benfica são capazes de ir até ao fim sem pestanejar.

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sporting - Jornada 7

Como tantos outros inauditos sportinguistas, procuro acompanhar sempre os jogadores que o meu clube coloca a rodar noutras agremiações. No final da época oitenta-e-nove/noventa, o Sporting decide ir a Aveiro contratar um internacional australiano nascido na Macedónia (razão só por si mais do que suficiente para uma contratação), Vlado Bozinovski de seu nome (um dos melhores nomes para se dizer em voz alta, se se quiser sentir logo melhor – de resto, recordo com saudade uma tarde em que confundi a Macedónia com a Eslovénia e estive horas numa esplanada de Ljubljana a fazer conversa utilizando apenas as palavras “Vlado” e “Bozinovski”). Tudo isto para, num processo que entretanto se tornou conhecido como "movimento-Wender", e apenas uma época depois, o ver regressar de novo ao Beira-mar, desta feita por empréstimo. Nesse sentido, acompanhei Bozinovski na época noventa-e-um/noventa-e-dois, e, por arrasto, o seu Beira-mar. Vlado jogou pouco (em termos quantitativos e, como era seu apanágio, também em termos qualitativos), de maneira que, no defeso, partiu para espalhar mediocridade no Ipswich Town - quase de certeza porque, na fonética anglófona, dizer Vlado Bozinovski era ainda mais prazenteiro. Ainda assim, eu continuei a acompanhar o Beira-mar por algumas épocas mais.

As razões iam variando. Em noventa-e-dois/noventa-e-três, foi para apreciar a primeira aplicação nacional bem sucedida da defesa a cinco com libero assumido, no 5-4-1 de Vítor Urbano: uma máquina bem oleada que, com Acácio na baliza, Oliveira como libero (na altura, usava-se a expressão “como Baresi”); Dinis, Vítor Duarte, Redondo e Zé Ribeiro formando o restante quinteto defensivo, Dacrosse funcionava como tampão defensivo, sobrando a organização ofensiva para Helsinho, Jorge Silvério e Cabral, sempre, embora à vez, no apoio a Dino, um homem que, segundo consta, até à discoteca o seu treinador obrigava a ir sozinho, para não se  desabituar da solidão no ataque. Já de noventa-e-seis a dois-mil-e-três, por exemplo, a razão foi sempre a mesma (o jogador Lobão, que, sozinho, fez trinta faltas num Sporting x Beira-mar), mas serve isto para comprovar algum constância por parte da minha existência no acompanhamento da equipa mais representativa de Aveiro. E, em nenhum minuto de nenhum jogo do Beira-mar, eu vi um seu jogador, perante uma bola parada a quarenta metros da linha de fundo, chutar directo.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           Em afamado e galardoado filme, Alfredo Pacino partilha com Frank "Frankie Five Angels" Pentangeli algo que o seu pai lhe ensinara: mantém os teus amigos perto, mas os teus inimigos ainda mais perto. É certo que, na mesma obra cinematográfica, Pacino também diz "Banana Daiquiri", mas nem por isso este conselho deixa de merecer atenta reflexão. Bom, a expressão, originalmente proferida por um general chinês que já morreu (logo aqui, três inequívocos indicadores de sabedoria: general, chinês, morto), merece várias interpretações, sendo que opto neste momento por lembrar aquela que aponta no sentido de, muitas vezes, se não quase sempre, as acções dos nossos inimigos revelarem muito sobre as nossas fraquezas. Pois na última véspera de feriado, no impessoal Estádio Municipal de Aveiro, um jogador emprestado pelo Vitória Sport Clube à equipa da casa, optou, com trinta e oito minutos decorridos, por chutar à baliza uma bola parada a quarenta metros da baliza. Pode haver várias explicações para esta excentricidade. O jogador Renan pode, por exemplo, ter andado a ver vídeos do ex-jogador Heitor - antiga glória do Marítimo, que, por ter um pacto com o Diabo, conseguia compensar a absoluta falta de talento com a capacidade para meter no ângulo, com uma força-parva e aos ziguezagues, qualquer bola parada em que encostasse a chuteira - e, por isso, ter ficado cheio de fé/tesão para chutar dali. Também pode, por outro lado, ser um doente terminal e, voltando à questão do credo, estar plenamente convencido de que Deus lhe concederia esse último desejo, o de mandar um petardo indefensável ao ângulo a quarenta metros da baliza.

Quase tudo é hipótese, na verdade. Mas, se um jogador adversário remata à baliza a quarenta metros de distância, é bom que nos lembremos daquele paleio dos amigos e dos inimigos, e comecemos a pensar se não teremos uma qualquer fraqueza que impele os nossos inimigos a  chutar a quarenta metros da baliza. Eu, que sou eu, só me vejo a chutar à baliza a quarenta metros da dita nas seguintes situações: a) estou lixado com toda a gente da minha equipa e vou chutar daqui, ao calha, numa clara manifestação “vão todos *****merda, já nem vos posso ver à frente”; b) os adversários fizeram barreira e eu quero acertar com a bola num deles, porque estou lixado com toda a gente e pretendo manifestar a minha pretensão de irem “todos *****merda”; ou c) o guarda-redes adversário é uma porcaria, por que não chutar já daqui?. São as hipóteses que, humildemente, avanço para a discussão.

O Sporting empatou em Aveiro. Costumam acontecer coisas estranhas ao Sporting, em Aveiro. Sejam hat-tricks de defesas camaroneses que, nos dias que correm, estão contratualmente ligados ao Recreativo da Caála, sejam remates a quarenta metros que entram na baliza porque o guarda-redes tem reflexos duma avó, são quase sempre coisas que roubam pontos ao Sporting. Findo o último Beira-mar x Sporting, os inimigos do Sporting, para além de não crucificarem o guardião que defende para dentro uma bola rematada na sua direcção a quarenta metros da baliza (faz sentido, eu também nunca digo mal do César Peixoto ou do Fernando, por exemplo), teceram ainda louvores a Hélder Postiga. Parece inclusive que, no lance do golo, Postiga esteve impecável, recuperando a bola ao defesa. Devemos, portanto, ignorar o facto de Postiga ter  tido de recuperar a bola porque a perdeu em corrida para Hugo, o “velocista” “central” do Beira-mar (sim, as aspas revelam ironia). Da mesma forma que Paulinho César, do Porto, era um avançado para fazer brilhar os Tó Ferreira do Famalicão, Postiga é o avançado que existe para fazer brilhar os Rui Regos desta vida. Nada mais.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Benfica - Jornada 7 - Rojões, pudim e digestivos.

Depois da escalada ao Pico do passado sábado, voltei ao Continente no início desta semana. O regresso ficou marcado por uma breve, porém intensa, paragem no Faial, da qual só me lembro do primeiro golo do Shalke 04, dos seis primeiros gins tónicos no Peter e de uma evacuação de helicóptero para Ponta Delgada.

Regressei ao Continente directamente para o Norte do País, onde, como é sabido, mantenho alguns negócios. Rumei ao Minho, mais precisamente à Roma portuguesa, tcc (também conhecida como) Braga, onde assisti, num conhecido restaurante perto da Sé, ao jogo que opôs o Benfica ao Sporting de lá. Durante o desafio fiz-me acompanhar de uns portentosos Rojões, condimentados com uma apurada tripa farinheira, batata aloirada em intensíssimo refogado, sarrabulho e grelos ensopados em delicado caldo de azeite e alho.

À medida que o jogo avançava e que eu ia devorando este prato supinamente confeccionado, cogitava em várias coisas, desde a imortalidade da alma à fantástica nomenclatura de Nico Gaitán. É que para além de um talento bruto, discretamente revelado nesta partida, Gaitán tem, de facto, nome de grande futebolista. Estará, por certo, ao nível de Enzo Scifo – o melhor nome de futebolista de todos os tempos, imortalizado no cósmico “Scifo, golo” de Rui Tovar - de Roberto Baggio, de Chrissie “Fucking” Waddle, de Mozer, de Shéu Han, de Jonas Thern (até dá gosto carregar no “rrr” de Thern), de Ljubinko Drulovic e de Preud'Homme. Tudo designativos poderosos, sonantes, sustenidos, capazes de encher a boca de qualquer relatador (salvo Gabriel Alves que era mau com os sotaques e que dizia “Proidóme” ao tentar dizer Preud'Homme). Do outro lado da barricada, Gil Baiano, Esquerdinha, Chicabala, Jorge Fucile, Carlitos, Nelo, Nandinho, El Hadrioui, Miguelito e Tote são exemplos acabados de jogadores condenados ao insucesso pela denominação. Exceptuam-se desta regra, eviendentemente, Ronaldinho Gaúcho e Cristiano Ronaldo, que tem o nome mais impensável de chamar a uma criança que tenho memória de ouvir. Mas adiante: como se sabe, ter nome de futebolista é meio caminho andado para se ser um grande futebolista. Nico Gaitán está, evidentemente, no bom caminho. Viu-se no domingo.

Devorada a travessa inteira de rojões e seguindo o jogo para um pudim Abade de Priscos, sou confrontado com a magnífica triangulação Fabinho-Saviola-Carlos Martins (lá está, nome de craque e de jazzman), que resulta no golão deste último. Considerando o estado de nervos em que me encontrava, a que não era alheia a demora na chegada de mais uma garrafa de um encorpado maduro tinto da região, explodi ali mesmo e gritei golo, seguido de expressão vernacular que rima com reviralho. No micronésimo de segundo em que o fiz, temi pela fúria brácara dos adeptos do Sporting local. Toda a gente sabe que um minhoto irritado é capaz do pior. Qual não é o meu espanto quando quatro quintos do restaurante gritam golo comigo. Recebo um abraço, dois palavrões e três sorrisos e compreendo a velha máxima que nos diz que em Braga o Benfica está tão em casa como na Estrada da Luz.

Ao engarfar o último trecho do sobredito pudim, reparo nas comemorações do autor do golo vermelho, que me deixaram bastante enjoado, como se acabasse de comer algo que leva vinte ovos e trezentos gramas de manteiga e açúcar: reparemos que Martins marca o golão, corre para a bandeirola de canto e simula qualquer coisa intravenosa – o que pode ser interpretado como algo para os lados do ilícito ou como uma crítica subtil à nomeação de Paulo Bento como seleccionador. Logo de seguida, pede uma bola ao apanha ditas, simula a gravidez e num gesto de extrema violência, esmurra a barriga grávida provocando parto extemporâneo do nascituro. O que quis Martins dizer com isto? Não fosse uma generosa aguardente envelhecida em carvalho, servida em balão aquecido, teria sido torturado por esta celebração plena de pós modernidade durante o resto do repasto.

Com o apito final do árbitro, depois do Benfica ter estado perto do dois a zero por duas vezes, dei por terminada a minha refeição. Quando me preparava para solicitar a conta ao Garçon, confronto-me com a entrevista relâmpago de Domingos Paciência: no seu fácies era legível a desesperada procura da perfeita desculpa para o sucedido. Não encontrou melhor que um fora de jogo assim-assim e a referência ao facto de o Benfica, depois do golo, ter jogado em queima-tempo. Após uma tirada deste calibre, fui forçado a mandar vir mais um digestivo. Fechei os olhos e, enquanto o bebia de penalty, consegui rever em fast forward os três minutos, dois beijos, seis apertos de mão, catorze palmas e cinquenta passos que o bracarense Vandinho deu para sair do campo instantes antes do fuzilamento Martineiro. “Ainda te lixas com f se dás um jogo como empatado aos setenta e três minutos”, já me dizia um tio meu, treinador adjunto (com curso de grau dois) do Marialvas de Cantanhede nos anos oitenta. Paguei a conta, saí do restaurante, e fui festejar com aqueles imensos benfiquistas que apitavam no Campo da Vinha. Afinal, estava “tipo do género” a jogar em casa.

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