sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PORTO - JORNADA 17 - Hulk, um Penalty do Renascimento


O penalty que deu a vitória ao Porto em Aveiro deu escusado brado. Na minha opinião, tamanha salganhada de equívocos, e que outro nome dar a Rui Gomes senão Equívoco Logo Existe, só pode acontecer porque a alma contemporânea se encontra alheada da contemplação dos clássicos. Um autor publica um livro e em vez de se tentar encostar às verdades universais que amanhou numas quantas tiradas de génio, logo se precipita em fazer um contrato com o editor a fim de uma sequela que lhe possa render mais mulherio e, em podendo, dinheiro e gajos.

Há jogadores que pensam o futebol jogado com tais requintes de materialismo que não param para apreciar uma finta. Tomemos como exemplo o túnel, epítome do gesto técnico que se basta. Quando fazemos um túnel ao adversário os níveis de altivez estética estão alcançados ainda que fôssemos a jogar em contra-mão na direcção da nossa própria baliza.

A ineptidão dos realizadores de futebol para gravar os pequenos momentos de fantasia, e com eles de toda máquina dos resumos com Nuno Luz à cabeça, implica que só fiquem registados para a posterioridade as estéticas do golo. Toda a gente apupa o jogador que se dá ao desfrute de ficar a contemplar a própria finta, uns milissegundos que seja, apenas porque essa contemplação o poderá afastar da compulsão hodierna pelo golo (aquilo que noutro lugar, umas linhas acima, na verdade, gostaria de ter chamado, a hegemonia candente da estética do golo).

A passagem de Ronaldo de extremo fantasista a goleador, por exemplo, cavou um fosso para Messi nas cogitações sobre o exercício da arte. Por outro lado, a assombrosa capacidade de Ronaldo para afunilar as suas virtudes em favor da obtenção do golo (desde 2007-2008) tem-lhe garantido um lugar na luta pelo sublime, lugar que não merece enquanto virtuoso, mas que merece enquanto ser capaz de abdicar - abdica de momentos técnicos em favor de comparência semanal no resumo como o golinho da praxe, no fundo, largou a finta para se especializar no remate. Naquele lance ocorrido em Aveiro, Hulk, que anda pouco maçado por aparecer nos resumos só a fazer golos, quis gozar no ar uns instantes antes de retomar o contacto com a bola.

Ali estava ele no ar a contemplar a perdição de André Marques, quando é ceifado pelo pé de coice: penalty. Repetida a imagem mil vezes sabemos que é penalty, mas percebemos que algo está errado no momento que Hulk fica suspenso no ar. Nenhuma simulação, mas se me permitem eu explico a disjunção cognitiva: não estamos habituados a ver um homem gozar uma finta enquanto objecto final do prazer, e ninguém percebe que isso leve um tempo. Foram-se os clássicos, e ninguém está cá para contemplações. Conta comigo, Hulk.

Sporting - Jornada 17

Alberto Zapater chegou a Alvalade com umas quantas referências que, com boa-vontade, podemos balizar ali entre o “sim senhora” e o “mais ou menos”. À cabeça, ia-se registando amiúde o lance que o deixara já na história do futebol europeu: “El Toro” marcara o primeiro golo de sempre da novel competição europeia de clubes, a Liga Europa. Quiçá de forma essencialmente injusta, no futebol, ao contrário de em muitas outras extensões da vida, dá-se exclusiva primazia ao “fazer mais”, em detrimento do também profundamente valoroso “fazer primeiro”. Um bom exemplo desta dinâmica é aquele que opõe a realidade do Real Madrid, detentor de nove títulos de campeão da Europa, à do Sporting, o primeiro clube a marcar um golo nessa mesma competição. Os adeptos do Sporting têm, portanto, e através das próprias vivências, plena consciência de como o “fazer primeiro” tende a ser desvalorizado em relação ao “fazer mais”, e, de mais a mais, sendo apurados especialistas em torcer o nariz a coisas em geral, torceram-no também em relação a Zapater. Como um dos mais insignes representantes da raça, também eu torci, claro: o médio espanhol marcou o primeiro golo de sempre da Liga Europa? Bela porcaria, o Brian Deane também marcou o primeiro golo de sempre da Premier League. Pulverizada, através de argumento irrefragrável, essa mais-valia de Alberto Zapater, sobejavam outras duas e, num ápice, os seus precípuos atributos futebolísticos alcançavam forma através de a) ter o mesmo nome próprio que Beto Acosta e b) ser o melhor amigo de David Villa. A primeira qualidade sofre um rombo irreparável quando se constata que Secretário, Cao e Milhazes partilham, não apenas o nome próprio (Carlos), como todo o nome composto (Carlos Alberto), com Tevéz, Valderrama e Gamarra. A segunda, essa, desmancha-se toda, que nem um Hulk contra o Beira-mar, quando se recorda que Robert Spehar também foi padrinho de casamento do Boban.

E Zapater ali estava, já sem grande crédito junto dos sportinguistas, sentenciado à suplência num meio-campo musculado em que a titularidade se define pelo tamanho do cabelo. Até que chegam os encontros com o Penafiel e o Marítimo. Entre o terceiro tento sportinguista ao clube onde António Folha pendurou as botas, e o segundo “toma!” ao clube ao serviço do qual Paulo Alves festejou um golo seu à Juventus, passaram apenas setenta e quatro minutos. Setenta e quatro minutos em que Zapater anotou quatro golos. Nenhum deles mal-parecido, o que torna a façanha digna de ainda maior reverência. Esses setenta e quatro minutos são suficientes para Alberto se ter tornado no melhor jogador espanhol de toda a história do Sporting, batendo a singular concorrência de  Toñito, António Robaina, Koke e Miguel Angel Angulo. Bem sei que, para este efeito, bastaria ter ganho um pontapé-de-canto contra o Rio Ave, por exemplo, mas Zapater fez questão de, tal como lhe fizeram perante as anunciadas qualidades futebolísticas que possuía (autoria do primeiro golo na Liga Europa, primeiro Alberto pós-Acosta e amizade de Villa), dizimar os argumentos da concorrência castelhana em Alvalade. Esses minutos, os setenta e quatro, são tanto mais fascinantes quanto se percebe que os golos de Zapater foram obtidos sem recurso ao seu ponto forte: o pé direito. Ora, fosse eu o espanhol e jamais chutaria à baliza com a direita, deixando para sempre as pessoas naquele limbo, o da “e se o gajo começa a chutar com a direita, ai, ai”. Aliás, fosse eu o espanhol, e pensaria seriamente na hipótese de me pôr é já a andar do Sporting, passando, assim, a ser lembrado como um dos mais espectaculares jogadores que passou pelo clube. É que se, conjecturemos, Djaló tivesse deixado Alvalade após o bis ao Benfica na final do Torneio do Guadiana no início da época dois-mil-e-seis/dois-mil-e-sete, em vez de cá andar há um monte de épocas a tentar dominar a bola com dois pés dormentes, nenhum sportinguista se lembraria dele como sendo inferior a um híbrido entre George Weah e Salif Keita. Mesmo que, note-se, tivesse saído do Sporting para assinar pelo Farense e fosse, nos dias que correm, segundo suplente do  treinador-jogador Pitico. Não esquecer que é precisamente por ter ficado pouco tempo em Alvalade nos período pós-quatro-golos-em-quinze-minutos-ao-Nacional, que Carlos Bueno ainda é recordado na mente de alguns sportinguistas mais esforçados como “o van Basten uruguaio”.   

P.S: Frente ao Marítimo, o jogador Carlos Saleiro entrou ao minuto oitenta e oito, contrariando a tendência da actual Liga para com a sua pessoa - a de entrar no segundo minuto do tempo de desconto. As coisas estão, então, a melhorar para o Carlos e, mantendo-se este crescendo, prevê-se, segundo os meus cálculos (recorri a uma calculadora científica), que jogue um encontro completo com Paulo Sérgio na época 2015/16.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Benfica - Jornada 17 - Sobre Estratégias de Comunicação

Carta aberta ao Presidente do Sport Lisboa e Benfica

Caro Presidente:

Certo que ultimamente a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica – doravante denominada por nós – tem andado atrás do gabarito perdido. E de facto temos conseguido voltar às boas partidas, juntando, no mesmo desafio, o jogar assim-assim com jogar para nota artística.

Certo também que ontem foi um desses dias: uma hora de sonho e vinte minutos de pesadelo mais dez de absoluta normalidade assim-assim. Se, no ano passado por estas calendas levávamos uma vantagem de três zero, nem mesmo nos nossos piores pesadelos equacionaríamos empatar a partida (defino pior pesadelo: três jogadores expulsos e substituição defensiva de Di Maria por César Peixoto). Recordo até um jogo com a Naval Primeiro de Maio onde, aos onze minutos já estávamos a levar dois zero no lombo e, nesse mesmíssimo instante, a dúvida de todos os benfiquistas não residia em saber se conseguiríamos dar a volta ao jogo: estava, sim, em perceber se a volta era conseguida antes do intervalo ou na segunda parte. Ora, Presidente, ontem o Benfica definiu-se na sua versão desta época: estando a ganhar três a zero, nenhum destes todos benfiquistas (nós) estava tranquilo quanto à permanência do resultado, estivesse onde estivesse: no estádio, no sofá, no café ou, no meu caso, num quarto de hotel de estrada no País Basco Francês.

É certo, portanto, que este ano a coisa dificilmente lá vai. Até podia ir – fossemos nós uns melancólicos optimistas – mas, com o começo desastroso, as boutades e as robertadas, está difícil. Ora, é em alturas como estas que precisamos de um duche massivo de realfussbalitik – a realpolitik adaptada ao futebol. Perguntar-me-á, Presidente, o que lhe quero dizer com isto. Respondo-lhe com o final do jogo de ontem, com o momento em que Jorge Jesus agride ou tenta tentar agredir e agride um jogador do Nacional da Madeira que, seguramente, o provocou. Aqui está, Presidente, aquilo que nós mais precisávamos: bem mais que meia centena de reforços sul americanos.

Lembrando sempre que o jogador do Nacional em causa, Luís Alberto Santos dos Santos (sic), é para todos os efeitos e ao contrário do que alguns possam pensar, um agente desportivo, fácil será presumir que a justiça desportiva irá punir Jota Jota pelo acto. É justo, porque evidente, é de bom tom e tem o precedente dos quatro jogos que Scolari apanhou por esmurraçar um jogador sérvio chamado Dragutinovic. Ora, sendo Jorge Jesus punido com um, dois, dez, quinze jogos de suspensão ou apenas com uma simples multa, aqui estará aqui toda e qualquer – repito e ponho isto a negrito e a itálico – toda e qualquer justificação para todo e qualquer desaire do Benfica desta época, seja ele passado ou futuro. A partir daqui não importa a nossa própria incapacidade de ganhar, erros tácticos, erros de gestão de esforços, roubalheiras aqui e acolá. Na suspensão de Jesus – que deverá ser apodada de cabala montada por factores externos para deliberadamente prejudicar o Benfica e deliberadamente afastá-lo de onde merece (ou algo assim parecido, desde que contenha o advérbio deliberadamente) – residirá a explicação cósmica do que quer que seja, mesmo das quatro derrotas do início do campeonato. Sei eu, caro Presidente, que esta estratégia de comunicação não é original nem se coaduna muito com o livro de estilo do Benfica. Porém, é no mínimo uma ideia divertida e, deliberadamente, experimental.

Digne-se Vª Excelência receber os respeitosos cumprimentos e demais protestos de respeito de quem tem a honra de assinar-se um imenso benfiquista, Carlos Pringle.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sporting - Jornada 16

Foi uma noite consideravelmente tareca, a do último sábado, em Alvalade. Lá se concretizou o inevitável, findando, enfim, o reinado que ensinou todos os sportinguistas a votar em tudo, menos em indivíduos que partilhem apelidos com membros daquele conjunto de rock, os Extreme. É lembrarmo-nos todos disto, de ora em diante, mesmo que a alternativa ganhe forma num ex-inspector da PJ que queira trazer os trinta e oito anos de Pavel Nedved para a Academia. Bom, centrando-nos, todavia, no jogo desta jornada décima-sexta - encontro que defino como o “derby do mobiliário”, visto que opunha o  Paços de Ferreira, casto representante da capital do móvel, e o meu Sporting, clube que dispõe no seu actual plantel de diversos jogadores com mesinhas-de-cabeceiras nos pés -, optei por fraccionar, e a preceito, o mesmo em três momentos; tão distintos, quanto decisivos. 
E o golo inaugural da partida assume-se, nesta minha análise, como o primeiro instante, dos tais três. Um central qualquer do Paços chuta a bola a quarenta metros da baliza e é golo, um a zero para os amarelos. Rui Patrício, o jogador do Sporting que usa luvas e, segundo consta, pode jogar a bola com as mãos, reclama com os colegas, gemendo que não podem deixar os adversários rematar. Concordo com o Rui. O problema do Sporting é deixar os adversários rematar. Se não deixassem os adversários rematar, o Sporting nunca sofria golos. Mas, cheira-me, também não precisaria de guarda-redes e poderia, dessa forma, alinhar com onze jogadores de campo, aumentando sem dúvida a probabilidade de marcar na baliza adversária. Pobre Patrício, que tem de aturar uma defesa que permite remates a quarenta metros. Parece que querem fazer a cama ao Rui, não sei. 
O segundo momento trata-se da grande penalidade assinalada contra o Sporting. Parece que, aos avançados do Paços em Alvalade, já não é apenas permitido jogar a bola com a  mão na área do Sporting: também já podem cair sozinhos, que é falta. O árbitro – Luís Catita, um polícia de Évora - limitou-se então a seguir um desígnio aparentemente divino, e, nesse sentido, não o condeno. Pelo sim, pelo não, e num assunto não relacionado, devo fazer notar aos sportinguistas da zona de Évora que devem retirar o galhardete do Sporting do retrovisor de suas viaturas, se quiserem estacionar em segunda-fila. 
O terceiro e último momento ganha forma no preciso instate em que o universo ganha consciência de que o treinador Paulo Sérgio vai fazer entrar o atleta Grimi. Este argentino, e isto é do conhecimento geral, está qualitativamente mais longe de Paíto ou de Pedrosa do que da possibilidade de vencer, no mesmo ano, o Prémio Nobel da Física e o Oscar de melhor actor-secundário. E isso é dizer tudo. Pois quando aquele que, em termos oficias, é o treinador do Sporting manda entrar Grimi, o universo revolta-se e, dominado pela raiva, pune o Sporting com o terceiro golo do Paços – embora, sejamos justos, mandar fechar o mundo fosse pena bem mais congruente. E quem pode, neste caso em concreto, censurar o universo?

P.S: Dois dos nossos jogadores que, não querendo conspurcar em absoluto o conceito de “avançado”, identificarei como “que jogam lá à frente”, foram notícia durante a semana. De modo efectivo, Héder Postiga e Yannick Djaló têm preenchido umas quantas parangonas. O primeiro porque, consta, é pretendido por um par de clubes russianos, que, e passo obviamente a citar querem “roubar” o goleador. Se percebo as aspas no verbo roubar – é roubar no mesmo sentido que um xarope me “rouba” um morbo ou uma mulher de vida fácil me “rouba” a solidão -, não entendo por que raio as não enxergamos no termo goleador. Uma gralha, certamente. Já Yannick,  foi pai. Uma boa notícia que, além de mandar boa parte da teoria Darwiniana às urtigas, poderia ter o condão de motivar o “jogador” (ao contrário de certos jornalistas, não falho uma aspas, eu), levando-o a golos e exibições de classe. No caso de Djaló, porém, cheira-me que só o vamos ver a festejar como o Bebeto ou de polegar na boca quando a garota dele já andar na Primária. É o que temos. Não sei se não compensa.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

PORTO - JORNADA 16 - José Eduardo Bettencourt e Mariano

Não esperem que eu me detenha no périplo goleador de Hulk ante a Naval quando o Sporting, com a demissão do seu presidente, me permite experimentar a consistência da expressão “aquilo não é um clube, é um romance Russo”.

Acabo de reler e segura-se.

Quer isto dizer que escuso perorar sobre a estranha configuração escatológica que permite que muito do ascendente de Villas-Boas no balneário se deva ao facto de ser mais velho que aquela criançada toda (só o Helton chega perto). Também escuso de mostrar preocupação com a propensão de Varela para lesões ou, pior, com a manifesta impossibilidade de encaixar Mariano Gonzalez numa narrativa confortável acerca da vida em sociedade. E acreditem que já tentei de tudo. Primeiro determinei que Mariano seria um desastre. Depois lá me fui convencendo que a sua maneira de ser desastrado era, afinal, a sua grande virtude – foi nessa altura em passei a reparar na espantosa a forma como ele consegue fazer fintas com as suas desconcertantes recepções de bola. Houve ainda uma altura em que me limitei a achar que ele era um bom jogador cujo estilo, de truculento, prejudicaria a recepção crítica dos espectadores da Sporttv – esta narrativa aguentou uma tabela, ele passou para o Lucho, desmarcou-se, recebeu a bola e aí eu tive que abandonar esta hipótese de trabalho. No fundo, Mariano é uma personagem futebolística com grande densidade caracteriológica, um gajo cheio de heterotopias naquela cabeça que nos faz questionar, a cada jogada, se os tijolos que carrega nos pés não serão meras projecções de preceitos arcaicos.

Mas voltemos ao Sporting, que isto de ter uma personagem densa para zurzir não é nada quando há todo um clube cuja reputação se estabeleceu na possibilidade de Eduardo Bettencourt sobreviver ao primeiro mês de mandato. É demasiado fácil dizer, como tenho visto por aí, que o presidente demissionário falhou em tudo. Na minha opinião Bettencourt foi uma provação à sociedade civil do Sporting, algo nestes termos: será possível um presidente fazer merda atrás de merda durante um ano e meio sem que a massa crítica do clube o ponha a correr. A sociedade civil do Sporting é que falhou, positivamente. Por deus!, num clube normal um presidente que tivesse como um dos seus primeiros actos de gestão a contratação de Angulo era empalado. Um presidente que contratasse o Pongolle era mandado para Guantanamo num avião fretado pela Juve Leo. Um presidente que se lembrasse do Sá Pinto para director desportivo era atirado para o centro histórico de Guimarães com uma tatuagem do Braga na testa. Um presidente que se lembrasse do Costinha para director desportivo era obrigado a contratar o Maniche. Um presidente que vendesse o Moutinho ao Porto era obrigado a correr num ano o mesmo que a Moutinho corre num treino calmo. Um presidente que contrata o Torsiglieri pelo preço do Otamendi era obrigado a ficar com o Nuno André Coelho. Um presidente que escolhe o Dias Ferreira para presidente da mesa da assembleia-geral era obrigado a tomar café com ele todos os dias. Mas não, Bettencourt conseguiu fazer todo o tipo de asneira e demitir-se.

O facto de José Eduardo Bettencourt ter saído pelo próprio pé remete-nos para a única explicação possível: JEB abandonou uma casa há muito abandonada (excepção a Angulo, ainda a equipar-se no sótão).

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Benfica - Jornada 16 - O azar melancólico do grandioso clube

Para além de ser um clube melancólico, o Benfica é um grande clube com bastante azar. Aliás, o azar benfiquista funda a melancolia epónima. O jogo de ontem contra o OAF da Académica de Coimbra não perfaz excepção a este estado e alinha-se, é certo que em menor escala, com uma corrente que tem picos altos na infelicidade de Costa Pereira na chuvosa final da Taça dos Campeões de 1965, em S. Siro contra o Inter (já para nem falar no azar de se jogar em casa de um dos finalistas) e no penalty de Veloso em Estugarda, na final da Taça dos Campeões de 1988.
Vejamos: o Benfica ganhou ontem ao OAF da Académica de Coimbra com um golo claramente obtido à margem das leis de jogo, em grosseiro offside. O azar disto é que tão visto como o offside do golo vermelho são os dois penalties que ficam por assinalar cometidos um sobre Fábio Coentrão, outro por corte com a mão de um cruzamento do Fábio Coentrão. Anulado o golo ao Benfica, asssinalados os dois penalties devidos, aplicando a lei dos cinquenta por cento à teoria das probabilidades de marcar um penalty e falhar o outro, o Benfica ganharia o jogo por um-zero, precisamente o resultado que alcançou frente ao OAF. É caso para dizer que o Benfica teve o azar de ganhar o jogo desta maneira inglória por um zero quando o devia ter ganho sem grande glória também por um zero (tenho para mim que um jogo ganho por um zero de penalty não é glorificante, sobretudo se contra equipas simpáticas como o OAF da AAC).
A seis de Novembro de 2007, o Benfica deslocou-se a Parkhead para jogar com o Celtic de Glasgow para a liga dos Campeões. Perdeu um zero. Aos oitenta minutos de jogo, Gilles Binya, um meridiano trinco que tivemos nas fileiras, assinalava o segundo momento da sua inscrição na história do Benfica: a uma estranha e portentosa forma de marcar lançamentos laterais adicionou uma entrada violentíssima a Scott Brown, com bolinha vermelha no canto superior direito, capaz de gelar qualquer alma caridosa com um cortante iiiiiiiiiiiiii. Resultado: seis jogos de suspensão. Ontem, aos trinta e cinco minutos de jogo, um meridiano trinco do OAF chamado Pape Sow conseguiu uma proeza notável: elevar os requintes da acrobacia agressiva para um nível bem mais nureiévico que karatékidico, numa agressão merecedora de bolinha vermelha no canto superior direito, capaz de gelar qualquer alma caridosa com um cortante iiiiiiiiiiiiii, fazendo com que a de Binya, já por si só horripilante, parecesse uma brincadeira de jardim escola.
Chegados aqui sabemos que a) a arbitragem é medíocre e a mediocridade que dirige o futebol fifense está-se nas tintas para os avanços tecnológicos no auxílio de decisões certas e justas usados noutras modalidades desportivas e que acabariam com estas cretinices (pardon my french) semana após semana, usando como justificativo desta recusa argumentos tão maquiavélicos que só entendidos como não sérios é que se lêem até ao fim e , b), Pape Sow, em Portugal, jamais e em tempo algum apanhará, no mínimo, os mesmíssimos seis jogos que Binya deglutiu - punição que, diga-se, tenho como justíssima em função do acto praticado.
Nada mais me restando para concluir, até porque estou com pressa para apanhar um avião para Genebra por causa de um negócio de importação de canivetes, termino com um desabafante e sempre justificativo o futebol é isto.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Jornada 15 - Guarín: um mau problema

Fenómeno pouco estudado entre os especialistas é a surpreendente constatação acerca da inexistência, nas últimas décadas, de um momento histórico em que o Porto conseguisse fazer coexistir no plantel dois números 6 de nível – nada que tenha impedido o Octávio Machado de usar 4 em simultâneo (facto ocorrido naquele jogo em que o Jorge Costa atirou a braçadeira ao chão).

A grande excepção, talvez, será a coexistência de Emerson e Paulinho Santos, uma curta sobreposição de talento trinco depressa desfeita pela urgência de deslocar Paulinho para a posição de lateral esquerdo onde representava uma mais-valia em relação ao anjinho do Rui Jorge. A sobreposição seria estilhaçada com a ida de Emerson para o Middlesbrough. De resto cabe verificar uma longa lista em que a qualidade e o momento de forma dos jogadores nunca permitiu falar num competição construtiva para o lugar de 6: André, Bandeirinha, Rui Filipe, Barroso, Costa, Bino, Lipcsei, Doriva, Peixe, Chainho, Paredes, Quintana, Costinha, Irina Shayk , Tiago, Paulo Assunção, Fernando, Guarin, Mario Bolatti, Tomás Costa, Andrés Madrid, Souza (a Irina era para ver se estavam atentos).

Ao invés, sucedia uma de duas coisas. Tínhamos um excelente número 6 cujo espectro de uma lesão, face às fracas alternativas, poderia comprometer toda uma época: Emerson, Doriva, Costinha, Paulo assunção. Ou tínhamos um 6 que não se distinguia das alternativas do banco dada a circunstância de serem todos extremamente fraquinhos: a titularidade de Paredes é o caso mais óbvio deste paradigma.

Podemos dizer que o Porto sempre viveu na posição 6 uma fragilidade sabiamente escondida dos adversários pela solidariedade colectiva ou pela tenacidade do titular. Se Costinha se tem lesionado no mandato de Mourinho a alternativa seria Bosingwa (ao tempo um médio) ou o inenarrável Tiago. Mourinho não tinha ganho duas taças europeias, não seria hoje o melhor treinador do mundo e é duvidoso que Defensor de Moura tivesse ido almoçar à cantina do parlamento.

Basicamente, temos tido muita sorte. Contudo, em tempos recentes algo de drámático aconteceu: esta fragilidade ficou a descoberto com a partida de Paulo Assunção para Madrid – Paulo Assunção, é provavelmente o jogador com maior percentagem de derrotas nos jogos com a antiga equipa. Tentou-se de tudo: Guarin, Tomás Costa, Raul Meireles e, finalmente, Fernando (aquilo do Nuno André Coelho no Emirates não conta). Como Raul Meireles fosse demasiado precioso para ser retirado da posição 8, a insistência em Fernando acabou por surtir. Problema resolvido.

Mais resolvido seria: com a chegada de Moutinho, o 6 passou a viver com as costas incrivelmente aquecidas, tanto assim que o 6 ideal passou a ter um perfil mais voluntarioso, ou seja, começou-se a pedir ao Fernando que se comportasse de um modo defensivamente mais irresponsável, ou seja, como o Guarin. Com a exibição de Guarin frente ao Marítimo e o retorno de Fernando à competição estamos com um problema que não estamos habituados a lidar: dois números 6 a disputar o lugar pelas melhores razões. Com esta brincadeira corremos o risco de perder a fragilidade táctica que nos concedeu a necessidade de compensação, tornando-nos mais fortes. 

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Benfica - Jornada 15 - Da Importância da Nomenclatura

Confirmadas as minhas teses sobre a correlação forte e tensa entre mercado aberto e x vem para o Benfica, confirmada a minha tese quanto ao genoma reactivo do F. C. do Porto ao universo Benfica – desta feira com o perigo vermelho e o Funes Mori certo no Benfica, ai já não vem, inflacionou-se, afinal Funes Mori interessa ao Porto – venho escrever-vos um desabafo rápido, curto e pertintente, ainda quente que está o siga em frente na Taça.

Não escondo eu um certo fascínio pela nomenclatura no futebol, tão na berra que está por força deste pedaço de literatura. Entendo - e já o expressei nesta mesmíssima ágora - que há uma relação directa entre um nome forte e a qualidade do futebol que se produz. Maradona, Zidane, Scifo, de todos o meu preferido, e Baggio (quem me dera chamar-me Carlos Baggio) tinham que ser grandes jogadores. Indalécio Hitler, que passou por Barcelos, jamais poderia ser um grande mago da bola, assim como Carlinhos, Carlitos, Zito, Vitinha ou Neca.

Posto isto, foi com particular júbilo que assisti à referida relação tensa entre mercado aberto e x vem para o Benfica desta semana, com a inscrição, nas capas dos jornais, de dois tipos com um nome absolutamente descomunal para jogador de futebol: Daniel Wass e Oscar Wendt, respectivamente lateral esquerdo e direito. Já consigo imaginá-los com a raça de um Shwartz, a força de um Thern e a elegância de um Strömberg e a eficácia de um Mats Magnusson. Ao constatar quem eram, o que fazem e ao que vêm, ousei até congeminar que Wass e Wendt, só pelo nome, têm tudo para se tornarem dos melhores jogadores de sempre do Benfica. Ainda por cima, jogando nas laterais, arrisca-se uma espécie de GreNoLi com os WW's vermelhos, não cometendo a injustiça de particularizar alguém da equipa do ano passado, uma verdadeira e épica QuiMaDaLuCoJaRaDiAiSaCa.

Continuando na esteira da dita relação de mercado aberto e vem para o Benfica, louvor também para a possibilidade de vinda de Taiwo: lateral esquerdo e nigeriano, tem a força bruta de um grande nome africano. Se Taiwo tiver tiro potente e certerio, tanto melhor, com aliteração em tê.

Estava eu bastante animado com este leque de possibilidades, mais ainda pela referência a um tipo chamado Ziegler que, diga-se, tem também grande nome de estratega e pensador da bola - sobretudo se for alto, esguio e falso lento (atributos para onde o nome Ziegler imediatamente remete) – quando me convulso pelo facto do Benfica ter ido buscar um central chamado Jardel ao Olhanense. Nesta altura estará o leitor mais benfiquista tão em choque térmico quanto eu ao escrevinhar estas linhas: Jardel? Mas o Benfica vai agora comprar um tipo chamado Jardel? Depois de tudo o que se passou com o Jardel e com o Jardel quase no Benfica e com o George Jardel no Benfica? Certo que o dito zagueiro Jardel possa até ser um central competente. Porém, se pensarmos na relação investimento em Jardel sobre número de piadas fáceis que uma contratação de Jardel para o Benfica é capaz de gerar, facilmente concluimos que não vale a pena ir buscar este senhor. Só assim por alto lembro-me de oito piadas fáceis demolidoras, com destaque para uma que ocorra na remota probabilidade de um auto-golo num jogo contra o F. C. do Porto, Sporting ou Beira-Mar. Ou seja, a vinda de um tipo chamado Jardel é bem capaz de ser um abalo moral forte numa altura de ressurgimento do Benfica pós cataplexia no Dragão. A única forma de contornar este melindroso assunto seria seduzir o jogador a mudar de nome antes de assinar contrato - solução que não é inédita e que se pratica em Chelsea, Londres, onde um tipo com o nome brutamontano de Paredão passou a ser conhecido, elegantemente, por Emerson Thomé.

Caros leitores: é também em situações como esta da vinda do Jardel que o Benfica falha, que o Benfica vacila, que o Benfica titubeia: para se jogar no Benfica não deve bastar só ser-se um jogador enorme, imenso, bem formado e culto. Deve, também, ter-se nome para jogar no Benfica. Deve existir, destarte, uma triagem na nomenclatura antes de se avançar para a contratação: há certos tipos que, graças à graça que têm jamais poderiam ter graça para jogar de águia ao peito. Que o diga George Jardel (bis), Carlitos, Carlitos, Nelo, Nandinho, Marinho e isto só para me ficar por uns quantos. Mal chegaram e já se sabia no que iam dar. E porquê? Porque não têm nome para ser jogadores do Benfica. Tal como este Jardel.

A continuar assim, daqui a uns dias ainda contratamos um José Deco.

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sporting - Jornada 15

No passado sábado, fiz deslocar toda a minha massa corporal até ao Alvalade XXI, sujeitando a minha existência ao encontro que opunha o Sporting ao Braga (Sporting Clube de), uma sociedade recreativa minhota por quem hei-de conservar sempre algum apreço pelo simples facto de ter, em tempos idos, tido sob contrato a dupla Forbs – Karoglan, uma das mais excitantes frentes de ataque, a nível fonético, da sua época. No que ao jogo propriamente dito diz respeito, basta referir que o Sporting jogou os habituais seis minutos de futebol não-ofensivo (vocábulo a que aqui recorro no sentido de “ofender” as pessoas, e jamais no sentido de “atacante” ou “entusiasmante”) e, por acaso, marcou dois golos. Chegou. Ou melhor, calhou chegar, que isto tem muito de aleatoriedade. No resto, destaco três pessoas: Hélder Postiga, Paulo Sérgio e Carlos Saleiro.

O primeiro homem saiu lesionado logo aos sete minutos, ficando por se conhecer a gravidade da mazela – e dando desde logo de barato que o Hélder tem uma lesão crónica na carreira. Com a saída deste particular avançado, diversos tipos de lance sofreram profundos rombos ao nível da probabilidade de ocorrerem, levando desde logo, e então, ao desespero os adeptos de bolas no poste, de grandes defesas do guarda-redes do Braga e de jogadas em que “ai, quase” ou “ai, se a bola passa”. Os adeptos de golos – ou, sendo menos exigente, de jogadas que não terminam com um avançado a cair e a pedir falta, depois de receber a bola de costas para a baliza e, num esforço que dá pena, tentar rodar -, esses, perceberam que vinha aí batata na rede. E, para variar um bocadinho, na rede dos maus (i.e., o adversário do Sporting).

O segundo nome que opto hoje por destrinçar, o de Paulo Sérgio, merece um maior número de considerandos. Não alcanço, sinceramente, a chuva de críticas que chovem das bancadas de Alvalade em direcção ao actual treinador do Sporting. É preciso saber contextualizar, e nós, sportinguistas, sempre fomos bons em quase todos os verbos do léxico nacional - onde, naturalmente, se incluí orgulhosamente o contextualizar. Sérgio não está a fazer uma época deplorável pela simples razão de que Sérgio não é o treinador do Sporting. É, isso sim, tanto estrutural, como ideologicamente, o treinador do Paços de Ferreira. Ainda. E, pelo andar de carruagem, também sempre. Estruturalmente falando, tudo em “Paços” Sérgio parece indicar que aquela matéria sólida respira melhor envergando um corta-vento e um chapéu da JCA do que enroupado com aquelas gabardinas de agora, as de seiscentos contos, que, se não tivessem o símbolo do Sporting no peito, até davam para ir beber um copo ao bar dum hotel caro. Já ideologicamente, a questão roça mais ainda as fronteiras do axioma: se o Sporting está a fazer uma época muito aquém do que a sua essência exige, é preciso não esquecer que Paulo Sérgio está a fazer a melhor época de sempre do Paços. Porque, seja aqui, seja no AC Milan, Paulo Sérgio é o treinador do Paços. Sendo, porém, justo, obrigo-me a dar a mão à palmatória e a reconhecer qualidades em Paulo Sérgio. Pelo jeito, é só uma, mas está lá: Paulo Sérgio é o treinador mais alto da história do Sporting. E isto, até ver, ninguém lhe tira. Da mesma forma que Fernando Santos ainda é lembrado como o treinador com mais cabelo.

Finalmente, Saleiro. Carlos é um nome que, em Alvalade, não se costuma associar a bons avançados, nem sequer a avançados, se quisermos ser intelectualmente honestos: Carlos Freire, Carlos Fumo ou Carlos Bueno são substantivos próprios que, sem sombra de dúvida, confirmam como é pesada a herança de Saleiro. Por outro lado, e combatendo o legado dos “Carlos avançados” em Alvalade, o apelido de Saleiro remete-nos imediatamente para sal, substância que quase todos os entendidos, numa metáfora muito elaborada, associam ao golo. Trata-se, em vista disso, de um dualismo complicado, este com que Carlos Saleiro convive. Não obstante, Saleiro destaca-se actualmente a um outro nível. Ele, que já foi famoso por ser o primeiro bebé-proveta do nosso país. Mais tarde, por ser o primeiro bebé-proveta a tornar-se futebolista profissional. Agora, e como temos vindo a perceber, é famoso por sofrer de uma condição médica muito específica, que obriga a que jogue apenas 75% do tempo de desconto da 2ª parte dos jogos do Sporting. Há quem diga que isto acontece apenas porque Paulo Sérgio é o treinador do Paços e, para os treinadores do Paços, Carlos e avançado, só existe um (Carlos Carneiro), mas estou crente que esta situação ultrapassa em muito essa realidade e só uma condição clínica grave justifica a entrada do jovem ponta-de-lança ao minuto noventa e um nos últimos dois ou três meses. Um caso dramático. 

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