segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Benfica - Jornada 4 - Robert Louis Stevenson, Leitões e eu.

Quando, numa quente tarde deste verão, me encontrei com o Bruno Aleixo no restaurante O Éden dos Leitões (EN 1, Mealhada, cortada para Tamengos, 500 metros, fecha à terça) estava longe de imaginar que as coisas chegariam a este ponto. No referido estabelecimento, e saboreando meio quilo do pequeno porco no espeto com batata frita e laranja, Aleixo convidou-me para, neste espaço, escrever sobre o Benfica. Aceitei o convite com honra imensa. Argumentos não faltavam: o espumante trepava bem e a recente senda de vitórias do Benfica eram bastantes e altamente motivadores.

Dois meses passados e cinco textos paridos, eu, Carlos Pringle, aspirante a sistematizador do conceito benfiquismo escrevi apenas sobre uma-vitória-uma da equipa a quem tento conferir sustentabilidade teórica. Todos os demais ensaios, onde este se inclui, tiveram que versar sobre a mordidura do pó da derrota, sobre a estocada de morte na espinha do touro vermelho, sobre a tristeza imensa do castelo de cartas que cai pela base. Dureza, caros leitores? Alguma. Porém nada que uma boa garrafa de água da vida da Escócia com trinta anos de maturação em barris de carvalho e o recurso ao dêvêdê do Benfica 2009/2010 não ajude a anestesiar.

Por falar em Escócia, no ano de 1885, o escocês Robert Louis Stevenson escreveu O Estranho Caso do Dr Jekyll e do Sr. Hyde. Este conto narra a história de um médico, o Dr. Henry Jekyll que, depois de ingerir uma poção, se transforma no irreconhecível e monstruoso Sr. Edward Hyde. Resumidamente, o Dr. Jekyll é bondoso, pratica o Bem; o Sr. Hyde é um malfeitor e, como é regra da referida classe, faz o Mal. Jekyll ganha-lhe o gosto e bebe a poção várias vezes; Hyde vai por aí fora e desbasta pessoas a torto e a direito. Como é sabido, esta obra motivou, ao longo dos tempos, um intenso debate sobre o dualismo do ser humano, sobre a capacidade de uma mesma criatura fazer bem (ou o Bem) de dia e mal (ou o Mal) à noite.

Perguntará o leitor porque raio é que me ponho com estes floreados literários em vez de abordar a quarta derrota em cinco jogos oficiais da equipa que apoio incondicional porém racionalmente. Já lá vão quatro parágrafos e ainda não toquei no assunto. Respondo com voz embargada: porque, caro leitor, o Benfica destes tempos é bem mais que a simples soma das suas derrotas. É a prova provada da actualidade da imortal obra de Stevenson: se atentarmos na comparação entre a época passada e esta, não será difícil descobrir um Dr. Jorge e Sr. Jesus. Um Dr. David e Sr. Luiz. Um Dr. Pablo e um Sr. Aimar, um Dr. Tacuara e um Sr. Cardozo. Como assim? perguntará o leitor ávido de mais metáforas deste calibre. A resposta é simples: se o ano passado o Dr Jorge punha a equipa a jogar um futebol total, este ano o Sr. Jesus põe a equipa a jogar totalmente a passo. Se o ano passado o Dr. David transpirava elegância, este ano o Sr. Luiz destila cacetada. Se o ano passado tínhamos uma equipa completíssima, este ano e mesmo estando lá quase os mesmos, não temos equipa nenhuma porque saíram Ramires e Di Maria que sozinhos eram a equipa toda. A solução deste enigma estará, obviamente, em perceber que poção é esta, onde se compram os seus ingredientes e, já agora, onde fica o boticário onde se pode comprar o antídoto.

Em cinco jogos oficiais, quatro derrotas. Frangos, lentidão, apatia, impotência e Benquerença: argumentos de sobra para um fracasso que vem demasiado depressa para uma equipa que joga demasiado devagar. Qualquer benfiquista que se preze - e que conheça o sentido e limites do benfiquismo - tem noção, por muito que a não brada aos quatro ventos, que isto está a meter água por todos os lados. Que não há desculpas. Nem paciência para as desculpas habituais. O Benfiquismo não é isto. Se, na época transacta, a arbitragem errava contra o Benfica, aplicava-se um Carrega Jesus e lá se espetava mais uma goleada. Se errava a favor do Benfica, este, também por regra, aniquilava o adversário com outra cabazada, capaz de diluir o erro do árbitro na insignificância. Estávamos nós, benfiquistas eufórico-melancólicos, convencidos que o Benfica se tinha reencontrado com a sua grandeza. Infelizmente, passou por ela, falaram um bocadinho, mas não trocaram números de telemóvel.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Vão desculpar , mas isto está muito fraco, este e os outros posts, já quando é o nosso amigo bruno a comentar a coisa muda de figura.
Alias podem notar que este é o 1º comentário que é escrito.

João

13 de setembro de 2010 às 15:57  
Anonymous João Canastro disse...

e este o 2º, João. Está um post engraçado até, oriundo de um benfiquista que sentiu 4 estucadas nas costas e reflecte sobre o porque do clube estar assim e anseia por um virar de resultados.

13 de setembro de 2010 às 16:23  
Anonymous Anônimo disse...

Bom, neste caso o meu comentário deve ser o terceiro! E muito gostava de dizer que dei por bem empregue os últimos 3 minutos do meu desocupado dia, mas apesar de perceber um notável esforço do autor deste texto para estar à altura da responsabilidade, apenas consigo pensar no que poderia não ter feito nestes minutos! Compreendo que o Bruno, ao contrário de mim, ande muito atarefado, mas tal como eu não gosto de delegar o meu tempo livre, também não considero que deva delegar a responsabilidade de nos divertir. Abraço a todos. JC

13 de setembro de 2010 às 17:19  
Anonymous Anônimo disse...

Pois eu digo que este texto é uma pérola de humor refinado. E ajuda a enriquecer o blog, que só tem a ganhar com tipos variados de estilo, para não cair na monotonia de um registo sempre igual.
Continuem assim, equipa!
Kury

13 de setembro de 2010 às 18:20  
Anonymous Anônimo disse...

Desta vez eu nem cheguei sequer a ler... qualquer abordagem ao famigerado futebol nacional é triste.
Ve lá se voltas a fazer qq coisa engracada Bruno!

13 de setembro de 2010 às 18:29  
Blogger João disse...

Carlos Pringle possui em si a sabedoria.

13 de setembro de 2010 às 18:34  
Blogger Ramiro Gonçalves disse...

Carlos Pringle Rules!!! A referencia Literária encaixou na perfeição para uma piada do mais alto requinte ... grande texto! tou ansioso pelo proximo e se deus quiser com mais uma derrota frente ao meu adorado e derrotista sporting!! hehe
O bem é que existe outro sporting no qual eu me posso agarrar.. e esse será o Grandiosíssimo Sporting Clube de Braga!!! :D

14 de setembro de 2010 às 12:32  
Anonymous antonio disse...

Pensei que no restaurante dos leitões lá estivesso o benquerença a ser homenageado pelos criminosos do apito dourado....

14 de setembro de 2010 às 12:37  

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