Benfica - Jornada 20 - Tal como seria de esperar.
Tal como seria de esperar, na passada segunda feira o Benfica foi a Alvalade ganhar. Isto aconteceu enquanto eu deglutia, tranquilamente, vinte e cinco pastéis de Tentúgal na área de serviço de Antuã, na A1. O início deste texto não é inocente: se, no artigo anterior anunciava que, por questões de fézada, iria assistir ao jogo na sobredita estação de serviço, seria de esperar que o fizesse. Se tomarmos a postura existencial e futebolística de Benfica e Sporting na presente Liga por duas linhas convergentes, o seu ponto de intersecção reside na vitória do Benfica em qualquer campo. Ou seja, lógica e superstição, juntas, por via de regra resultam sempre, tal como seria de esperar.A propósito do referido jogo, várias foram as vozes que exprimiram a convicção firme que o Benfica ganharia mesmo que estivesse a jogar apenas com sete jogadores e Luís Filipe fosse um deles. Tal convicção estará, por certo, ancorada na feliz conclusão aritmética de Alberto Cabral, adjunto de Paulo Sérgio, quando, no fim do jogo, afirmou que “se jogássemos sempre contra onze teríamos mais espaços para jogar”. Mais do que potenciar as convicções acima aventadas, com esta frase genial, Cabral abre a porta à sempre complicada lógica dedutiva e permite equacionar, no seu seguimento, a possibilidade de que o verdadeiramente tramado para o Sporting seria defrontar um Benfica composto apenas por Roberto na baliza e Nico Gaitán nas outras posições todas. Aí sim, poderia dar-se o caso de uma eventual cabazada. Um pouco como a teoria do queijo suíço: quanto mais buracos, melhor, logo, quanto mais queijo, menos queijo, melhor. Mais coisa, menos coisa.
No meio de tantas explicações para um resultado que choca pela sua profunda naturalidade, faltou apenas referir aquela que creio ser a principal causa do descalabro sportinguista: mais do que de resultados ou mais do que directiva, a grande crise do clube de Alvalade é essencialmente estética. É perfeitamente normal, como diria um anti-treinador do Benfica, que um clube que jogue num estádio tão horrendo como aquele se vá abaixo ao fim de alguns anos a ter que se confrontar com tal cenário semana sim, semana não. Vejamos: em primeiro lugar (e como me dizia um conclubista amigo), nada de bom augura a escolha, já na década de 2000, de um ícone da arquitectura dos oitentas: há aqui uma propensão para o insucesso que não pode ser de desconsiderar. Taveira não é o Beto Acosta da arquitectura. Em segundo lugar, e entrando já no campo da obra feita, é normal que, após alguns anos, o feísmo daquela aberração cromático-arquitectónica comece a esmagar a própria equipa. O nível exibicional de Anderson Polga, ano após ano, é disso um acabado e perfeito exemplo: um campeão do mundo de 2002 esmagado pela fealdade do seu local de trabalho nove anos mais tarde. Estas coisas, parecendo que não, contam imenso.
Hoje, em noite europeia e quebra enguiço na Alemanha, mais não me é possível escrever. É que com estas coisas da fézada, vi o Estugarda-Benfica a comer mais pastéis de Tentúgal que trouxe de Antuã na passada segunda, numa de continuar a dar sorte. Quando Cardozo marcou o segundo golo, não contive a comoção e chorei algumas lágrimas de glicose.

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