
No meu enciclopédico parecer, subsiste no futebol uma posição cujo enquadramento na equipa demonstra, para além de qualquer dúvida razoável, a habilidade do técnico que a orienta. Essa posição é aquela que os italianos identificam como
regista. O director. Aquele de onde se sabe sair o futebol na sua essência mais pura e atraente: as cuecas, as quebras de rins, os passes de morte, os golos bonitos, as cabritas, as penalidades batidas com um misto perfeito de frieza e técnica, e as cuecas outra vez, se possível ao mesmo adversário, para ele ficar piurso. No seu actual plantel de “temos de levantar a cabeça e continuar a trabalhar”, o Sporting tem apenas um
regista: Matías Fernández, o único chileno, a par dos míticos Elias Figueroa e Marcelo Salas, a ter vencido o prémio para melhor futebolista do ano em todo o continente americano, e o único a consegui-lo ao serviço duma equipa chilena. Desde que levou uma paralítica dum Milhazes (mais do que se referir ao próprio Milhazes, Milhazes é aqui utilizado como conceito que identifica um tipo de lateral muito específico: madeixas, cacetada, pluralização de quase todas as palavras aquando do discurso oral, etc.) contra o Rio Ave, já em Outubro, o chileno tem regressado aos poucos, tendo registado quarenta e cinco minutos no passado sábado, em Olhão. Trata-se, tão-só, e no mínimo, do melhor
regista verde-e-branco do pós-Balakov, mas tarda em impor-se. As razões são simples. Para já, Matías começou a sua carreira de leão ao peito com Paulo Bento como treinador. Assumido coleccionador de defeitos profissionais e de personalidade, Paulo Bento chegou, em tempos, a colocar Yannick Djaló como
regista do Sporting. Como é que se coloca, naquele posto em concreto, um jogador desprovido de técnica, de visão de jogo, de capacidade de passe e de cerca de 99% dos outros predicados indispensáveis à prática de futebol profissional, é algo que me transcende. Isto, meus senhores, é um treinador que a) não percebe nada do que faz e/ou b) estava a fazer de propósito. Seja qual for a alínea para junto da qual se inclinem mais, está bom de ver que Paulo Bento nunca seria o homem indicado para fazer Matías brilhar e, por arrasto, toda a equipa do Sporting. Saindo Bento, entra Carvalhal; um homem que, pese embora a óbvia qualidade de ter sido dos poucos treinadores da nova vaga que nunca vimos sem ser impecavelmente barbeado, o mais próximo dum
regista que tinha orientado fora um Abílio, um Marcinho e um Juninho Petrolina. Para esta época, o talento de Matías tinha Paulo Sérgio como principal oponente. O actual treinador do Sporting teve direito ao seu espaço num clube grandioso por um único e singelo motivo: a mera sorte de ter existência numa época em que, tamanha é a sede pela aparição de um novo Mourinho, o simples facto de se ter sido um jogador medíocre concede um largo benefício da dúvida no exercício da função de treinador de futebol. Se a mediocridade enquanto jogador de futebol fosse sinónimo de profícuas carreiras de treinador, o Sporting devia apresentar, já amanhã, Djaló como seu treinador-jogador – esse sim, seria o novo Mourinho, embora com toaletes integrais daquela ganga que simula estar coçada em vez de fatos italianos cujo preço cobre a dívida externa de vários pequenos países. No duelo entre Matías e Paulo “o onze tem de ter três médios iguais” Sérgio, vou sempre pender para o lado do chileno. Por todas as razões e mais algumas, mas sobretudo porque, ao passo que a equipa sai quadrada das mãos de Paulo Sérgio, dos pés de Matías, a bola sai redonda.
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