terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Benfica - Jornada 18 - Mas afinal de que falamos quando falamos de Benfiquismo?

Permitam-me, caros leitores, que hoje não me detenha nos dois últimos jogos do Benfica: na meia final no Dragão (e na necessidade de não embandeirar em arco com a vitória alcançada) e na vitória de Setúbal, contra o Vitória local, com grandes golos de Gaitán e Jara. Permitam-me sim, que me detenha na definição de alguns instantes que constróem o Benfiquismo.

O Benfiquismo enquanto sentimento é um processo em constante renovação. Um pouco como o amor, que, segundo se diz, funciona da mesma maneira. Esta renovação é feita de momentos marcantes de transcendência, de superação, de tragédia e, às vezes, de alguma patetice que, note-se, também faz parte do processo. Muitos desses momentos particularizam-se em imagens: relembramos, assim por alto, o jersey de Cosme Damião, todas as entradas em campo de Mário Coluna com a camisola do Benfica vestida, toda a existência de Eusébio da Silva Ferreira enquanto categoria ontológica, Zé Águas com o caneco em 61, Zé Águas com o caneco em 62, Sven Goran Eriksson a aterrar na Portela em 1982 e em 1989, Shéu Han a marcar a Munaron a passe de peito de Humberto Coelho em 1983, Veloso a disparar para Van Breukelen defender em 88, Hernâni Madruga Neves a desacelerar convencido que ouviu o árbitro a apitar fora de jogo a Frank Rijkaard que se isola em 1991, Isaías Marques Soares a entrar em Highbury Park a 6 de Novembro de 1991, JVP a 14 de Maio de 1994, em pleno estádio de Alvalade, a levar as mãos ao rosto marejado de lágrimas pela comoção de ter concretizado a ideia de estética total do futebol quando, na expressão feliz de Gabriel Alves, “partiu os rins a Vujacic” e disparou, outra vez, para o fundo das redes de Lemajic, Chico Buarque de Holanda equipado a rigor de águia ao peito com Eusébio e Coluna a ladear o poeta, Artur Jorge a dizer, a propósito de Caniggia "todos temos as nossas dependências", Rushfeldt a apertar a mão a Vale Azevedo, Michel Preud'Homme a voar, Manel Vilarinho no dia das eleições a dizer "vou ganhar largo", Simão Sabrosa em Anfield Road, Miccoli em Anfield Road e Rui Costa de um modo geral, incluindo aqui o melhor golo sofrido pelo Benfica desde a sua existência até ao fim do Tempo, marcado pelo Rui ao serviço da Fiorentina a 13 de Agosto de 1996.

Recentemente – quer-se dizer, há uma semana – o Benfiquismo conheceu mais uma inscrição na galeria da inesquecibilidade. Renovou-se num momento marcante que perdurará na memória ao lado dos elencados no parágrafo anterior. Esse momento acontece por volta dominuto seis do jogo com o F. C. do Porto no sempre traumático Estádio do Dragão. Fábio Coentrão intercepta, corre, tabela, vai, corre mais, desmarca-se a passe de Saviola, acredita na validade do passe do colega e, como dizia Orlando Dias Agudo a propósito da Selecção da França no México 86 “acredita até à morte da jogada”. E Fábio vai mesmo lá, até ao fim das coisas, até à morte, e consegue meter o pé com a elegância e delicadeza só ao alcance de quem, sozinho no mundo, ainda acredita que é possível o amor. E marca. Pensará o claro leitor que a inscrição na galeria de Benfiquismos inesquecíveis é esta, a do golo de Fabinho ao F. C. do Porto. Nada mais errado. O verdadeiro momento épico, lendário e superador a que me refiro vem a seguir e é o modo profundamente glorioso com que Fábio Rafael Alexandre da Silva Coentrão festejou esse mesmo golo. Fábio, consciente da monumentalidade do que tinha acabado de fazer, acto contínuo, salta a barreira da publicidade e, metaforicamente, corre para os braços do Benfica, abraçando-se a todos e a cada um dos benfiquistas espalhados pelo mundo, motivando-os, empolgando-nos, fazendo-nos crer, num segundo, que o impossível é exigível, celebrando a camisola que veste, honrando-a também como sua, assumindo-se como líder e como símbolo. Naquele instante, Fabião não está em si, está no benfiquismo. E ali se deixa estar mais uns segundos, crente que não há agentes de segurança que o demovam, Javi Garcia que o chame de volta ao jogo que se prepara para ganhar. Um amigo meu dizia-me que foi à inglesa. Também foi. Mas foi, acima de tudo, à Benfica.

2 Comentários:

Blogger Vencislago disse...

Muito bom... :D

8 de fevereiro de 2011 às 18:14  
Anonymous Joao Fernandes disse...

«só ao alcance de quem, sozinho no mundo, ainda acredita que é possível o amor» - nice touch

8 de fevereiro de 2011 às 23:27  

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