Sporting - Jornada 18
Liedson, o jogador que mais golos anotou em Portugal na última década, deixou o Sporting. Recebendo a Naval 1º de Maio (um clube que, apresentando um feriado no nome, terá a eterna simpatia dos portugueses), o Sporting tinha tudo para se despedir de Liedson com um triunfo. Só que o Sporting não gosta de ter tudo. Daí que Abel, uma pessoa cuja presença no relvado só se explica pela existência de um qualquer concurso que permita a um civil ocupar a faixa direita de uma equipa da 1ª divisão, jogue. Daí que Postiga, um avançado cuja quantidade de bolas perdidas só caminha a par do número de vezes em que cai em posição de fora de jogo, jogue também. Daí que muita coisa, na verdade. Embora alguns arautos da desgraça retumbem com insistência no sentido inverso, o Sporting não caminha a passos largos para a extinção porra nenhuma. O despertar deste fantasma está habitualmente ligado a diversas realidades, sejam estas as dívidas à banca, os orçamentos ridículos quando comparados com os dos principais rivais, as direcções a quem é, de facto, fácil associar um fruto (a banana), o pouco à-vontade no jogo subterrâneo e de bastidores ou, como se efectivou na sexta-feira passada, a saída do seu maior símbolo do novo e actual milénio. Apesar disso, e por muitos Abéis que tenhamos no relvado de Alvalade a agoniar a humanidade com a sua falta de talento físico-táctico-metafísico-etc. para não apresentar a bola e o espaço como principal adversário, o clube perdurará, e com a enormidade que o universo já lhe concedeu para todo o sempre. Não tenhamos ilusões de tragediógrafo: um dos três gajos a discutir futebol nos canais nacionais será sempre afecto à causa sportinguista. Em termos de fervor futebolístico, o país permite, basicamente, uma de três saídas à garotada que está para decidir que lema seguir até ao fim das suas vidas. Seguindo a actual classificação do campeonato nacional da 1ª divisão, temos, como hipótese a), o Porto. Uma vida enquanto febriciante azul e branco é quase sempre a via escolhida pelos garotos para quem o que importa é ganhar. Dê por onde der, nem que seja com golos com a mão ou do apanha-bolas. São os garotos que escolhem sempre o Ryu ou o Ken no Street Fighter 2 e só fazem hadoukens. Os que, nas peladinhas no recreio, querem ser da equipa do melhor jogador, um repetente, senão amuam, não jogam e não emprestam a bola. Depois há a hipótese b) o Benfica. Esta é a via lógica para os garotos que vão atrás da maioria. Os que dizem que claro que a terra é plana, se a maioria antes deles o tiver dito também. São os que, desde garotos, vivem sob o credo de que “mais é melhor” e “mais tem razão”. O Sporting surge-nos aqui como a hipótese c). O garoto escolhe o Sporting porque, para ele, jogar sempre com o Ken ou o Ryu é uma seca. Não há emoção, não há sofrimento, não há, no fundo, paixão. Toma consciência, desde cedo, que os garotos que escolhem o Ryu ou o Ken não ficam contentes quando ganham. Ficam aliviados. E alívio é o que uma pessoa procura quando, aflita, vai ao quarto-de-banho. Um clube de futebol deve dar-nos bem mais. O garoto que escolhe o Sporting percebe também que a maioria raramente tem razão. E quer uma crença que lhe permita manter a singularidade da sua existência. Uma crença que, em última análise, lhe permita ser uma pessoa melhor. Essa crença é o Sporting. Citando e adaptando um tipo qualquer, a paixão pelo Sporting surge da mesma forma que, mais tarde, emergirá a paixão por uma mulher: de repente, acriticamente, sem se debruçar uma nada que seja sobre a dor que acarretará. E, então, da mesma forma que existirão sempre homens a amar mulheres, vão existir adeptos de bola portadores da paixão pelo Sporting. A despedida de Liedson foi emocionante e a homenagem merecida, como só uma falange composta por pessoas, que um dia foram garotos que escolhiam o Honda ou o Zangief e que torciam o nariz perante a quasi-unanimidade de algumas causas, sabe, quer e gosta de proporcionar aos seus.

0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial