Sporting - Jornada 17
Alberto Zapater chegou a Alvalade com umas quantas referências que, com boa-vontade, podemos balizar ali entre o “sim senhora” e o “mais ou menos”. À cabeça, ia-se registando amiúde o lance que o deixara já na história do futebol europeu: “El Toro” marcara o primeiro golo de sempre da novel competição europeia de clubes, a Liga Europa. Quiçá de forma essencialmente injusta, no futebol, ao contrário de em muitas outras extensões da vida, dá-se exclusiva primazia ao “fazer mais”, em detrimento do também profundamente valoroso “fazer primeiro”. Um bom exemplo desta dinâmica é aquele que opõe a realidade do Real Madrid, detentor de nove títulos de campeão da Europa, à do Sporting, o primeiro clube a marcar um golo nessa mesma competição. Os adeptos do Sporting têm, portanto, e através das próprias vivências, plena consciência de como o “fazer primeiro” tende a ser desvalorizado em relação ao “fazer mais”, e, de mais a mais, sendo apurados especialistas em torcer o nariz a coisas em geral, torceram-no também em relação a Zapater. Como um dos mais insignes representantes da raça, também eu torci, claro: o médio espanhol marcou o primeiro golo de sempre da Liga Europa? Bela porcaria, o Brian Deane também marcou o primeiro golo de sempre da Premier League. Pulverizada, através de argumento irrefragrável, essa mais-valia de Alberto Zapater, sobejavam outras duas e, num ápice, os seus precípuos atributos futebolísticos alcançavam forma através de a) ter o mesmo nome próprio que Beto Acosta e b) ser o melhor amigo de David Villa. A primeira qualidade sofre um rombo irreparável quando se constata que Secretário, Cao e Milhazes partilham, não apenas o nome próprio (Carlos), como todo o nome composto (Carlos Alberto), com Tevéz, Valderrama e Gamarra. A segunda, essa, desmancha-se toda, que nem um Hulk contra o Beira-mar, quando se recorda que Robert Spehar também foi padrinho de casamento do Boban.E Zapater ali estava, já sem grande crédito junto dos sportinguistas, sentenciado à suplência num meio-campo musculado em que a titularidade se define pelo tamanho do cabelo. Até que chegam os encontros com o Penafiel e o Marítimo. Entre o terceiro tento sportinguista ao clube onde António Folha pendurou as botas, e o segundo “toma!” ao clube ao serviço do qual Paulo Alves festejou um golo seu à Juventus, passaram apenas setenta e quatro minutos. Setenta e quatro minutos em que Zapater anotou quatro golos. Nenhum deles mal-parecido, o que torna a façanha digna de ainda maior reverência. Esses setenta e quatro minutos são suficientes para Alberto se ter tornado no melhor jogador espanhol de toda a história do Sporting, batendo a singular concorrência de Toñito, António Robaina, Koke e Miguel Angel Angulo. Bem sei que, para este efeito, bastaria ter ganho um pontapé-de-canto contra o Rio Ave, por exemplo, mas Zapater fez questão de, tal como lhe fizeram perante as anunciadas qualidades futebolísticas que possuía (autoria do primeiro golo na Liga Europa, primeiro Alberto pós-Acosta e amizade de Villa), dizimar os argumentos da concorrência castelhana em Alvalade. Esses minutos, os setenta e quatro, são tanto mais fascinantes quanto se percebe que os golos de Zapater foram obtidos sem recurso ao seu ponto forte: o pé direito. Ora, fosse eu o espanhol e jamais chutaria à baliza com a direita, deixando para sempre as pessoas naquele limbo, o da “e se o gajo começa a chutar com a direita, ai, ai”. Aliás, fosse eu o espanhol, e pensaria seriamente na hipótese de me pôr é já a andar do Sporting, passando, assim, a ser lembrado como um dos mais espectaculares jogadores que passou pelo clube. É que se, conjecturemos, Djaló tivesse deixado Alvalade após o bis ao Benfica na final do Torneio do Guadiana no início da época dois-mil-e-seis/dois-mil-e-sete, em vez de cá andar há um monte de épocas a tentar dominar a bola com dois pés dormentes, nenhum sportinguista se lembraria dele como sendo inferior a um híbrido entre George Weah e Salif Keita. Mesmo que, note-se, tivesse saído do Sporting para assinar pelo Farense e fosse, nos dias que correm, segundo suplente do treinador-jogador Pitico. Não esquecer que é precisamente por ter ficado pouco tempo em Alvalade nos período pós-quatro-golos-em-quinze-minutos-ao-Nacional, que Carlos Bueno ainda é recordado na mente de alguns sportinguistas mais esforçados como “o van Basten uruguaio”.
P.S: Frente ao Marítimo, o jogador Carlos Saleiro entrou ao minuto oitenta e oito, contrariando a tendência da actual Liga para com a sua pessoa - a de entrar no segundo minuto do tempo de desconto. As coisas estão, então, a melhorar para o Carlos e, mantendo-se este crescendo, prevê-se, segundo os meus cálculos (recorri a uma calculadora científica), que jogue um encontro completo com Paulo Sérgio na época 2015/16.

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