Sporting - Jornada 8
A dada altura das nossas existências, pensava-se que o grande problema do futebol português residia na atribuição de apenas dois pontos ao desfecho vitorioso, ao passo que o empate garantia uma valorização de apenas um. Isto, em teoria, levaria as equipas pequenas – doravante, e por mero facilitismo literário-mnemónico-provocatório, aqui identificadas como “União da Madeira” - a arriscar pouco nos campos dos adversários mais poderosos, uma vez que a possibilidade de conseguir apenas um ponto a mais parecia não compensar o risco de tentar ver se o outro clube tinha guarda-redes e lixar-se, saindo de lá com zero pontos e em vergonha. Na época noventa e cinco/noventa e seis, tudo mudava e a vitória na Liga Portuguesa passava a valer três pontos. Esta mudança pretendia funcionar como um truque que levaria os União da Madeira do país a ir aos estádios das agremiações mais fortes com outra atitude, procurando os três pontos, que eram, agora, o triplo da benesse que o empate concedia. Tratava-se de um repto claro: “União da Madeira, arrisca, tu podes ganhar três pontos! Já não são só dois, agora são três! Chuta!”. É, na sua essência, um truque em muito semelhante àquele que uso na altura de dar o folar aos meus afilhados. Em vez duma nota de dois contos, dou duas de quinhentos paus. Os garotos ficam todos contentes, porque, na sua pueril ignorância, duas notas é sempre melhor do que uma. A possibilidade de ganhar três pontos seria também, e afinal, bem melhor que a de ganhar apenas um. As equipas iriam jogar todas ao ataque, feitas garotos. Feitas parvas. Esqueceram-se, as mais altas instâncias do dirigismo nacional, que as equipas pequenas não pensam como um garoto a pedir o folar, mas antes como um velho desassisado, daqueles dispostos a matar alguém com um tiro de caçadeira na cara pela simples e suposta razão de lhe terem atiçado o cão com piretes e asneiras várias. No caso do União da Madeira (aqui, e por momentos, representando apenas o clube a que dá nome e não a totalidade de equipas que acham que passar de meio-campo dá gangrena na boca), esse velho multiplicava-se, como sabemos, em cinco eslavos (Zivanovic, Dragan, Stilic, Markovic, Lepi), cinco brasileiros (Milton Mendes, Marco Aurélio, Pedro Paulo, Paulinho Carioca, Rodrigão) e o madeirense Nelinho, mas a ideologia era a mesma: queriam o seu ponto, não três! E tudo fariam por ele. Será, então, possível mudar este statu quo profundamente chato e que consagra entidades como Milhazes a uma carreira de futebolista profissional ?Esta postura secular assome-se aos meus olhos como complicada de mudar, daí que considere que os responsáveis devam tentar uma nova variante. Ora, no pretérito domingo futebolístico em Alvalade, lembrei-me que, por exemplo, um jogo desempatado ao minuto oitenta e nove pelo jogador Abel merecia congratular a equipa vencedora, não com três, mas com pelo menos doze pontos. Três pontos por cada fenómeno, portanto. Fenómeno um: Abel existir. Trata-se, não me interpretem mal, de um esforçado e simpático jogador, daqueles que não armam confusões, não estaciona em segunda-fila e, consta até, já deixou passar quinze velhas seguidas à sua frente na sua fila do supermercado, mas que, convenhamos, teve o azar de o futebol profissional não se coadunar por aí além com a necessidade - orgânica, neste caso em particular - de ter invariavelmente de olhar para a bola antes de a pontapear. Fenómeno dois: Abel marcar um golo. Fenómeno três: Abel marcar um golo vitorioso. Fenómeno quatro: Abel marcar um golo vitorioso no último minuto. No mesmo sentido, a equipa que sofresse este golo, deixaria de existir (um castigo que, ainda assim, peca pela óbvia escassez para quem se deixa derrotar por Abel no último minuto). O Sporting estaria agora na liderança, com vinte e três pontos, mas a justiça tarda em chegar ao futebol português. Talvez as coisas mudem, quando o Porto ganhar com um golo do Sapunaru no último minuto.
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