sexta-feira, 29 de outubro de 2010

PORTO - JORNADA 8 - Hulk, vê se escreves

O futebol de Hulk representa um assombro que o futebol português não merece e que o Porto nos oferece por manifesto excesso de generosidade. Tanta generosidade, aliás, está a ter como ingrato retorno sucessivas queixas entre os guarda-redes adversários, aparentemente, por dores de costas (nenhuma actividade tem tantas contra-indicações psico-somáticas como ir apanhar a bola ao fundo das redes). Lamentavelmente, a partida de Hulk para a Europa, aquela a salvo do FMI, está por meses; é minha convicção que o valor a resultar dessa venda será pouco importante se considerado o simbolismo histórico envolvido no previsível destino do Givanildo.

“Se a memória não me falha” é um preâmbulo bem-intencionado cujo uso se torna ridículo na minha idade. Se a memória não te falha jovem pouco molestado por ressacas de gin, pessoa de bem com pouco remorso a atrapalhar a limpeza da lembrança, feliz pouco traumatizado que não precisas de te atirar para baixo do sofá quando te acorrem as memorablias da adolescência, então os meus sinceros parabéns. Se a tua memória é parecida com a minha então deixa-te de presunções e vai à Wikipedia ou anda com post-its por perto como naquele filme do Christopher Nolan (O Cavaleiro do Memento, se me não falha tudo).

Mas, dizia, como pouco me permito a confiar na memória e na medida em que evito frequentar sites (como a wikipedia) por conselho do médico, estava de jurar que o Rui Barros foi o último avançado que o Porto vendeu a um clube de topo europeu (criança, a Juventus nos anos 80 era uma equipa de topo). Inúmeros avançados que nos encheram de alegrias e de dinheiro não lograram alcançar os píncaros da Europa: o Futre foi para o Atlético de Madrid, o Gomes foi para o Sporting de Gijon (lembrei-me desta sem usar a wikipedia, atenção), o Rui Águas foi para o Benfica, o Domingos foi para o Tenerife, o Sérgio Conceição foi para a Lazio, o Kostadinov foi para o Corunha, o Pena foi para o Braga, o Postiga foi para o Tottenha, o Yuran foi para o Spartak de Moscovo, o Drulovic foi para o Benfica, o Derlei foi para o Dínamo de Moscovo e nem o Jardel não foi mais longe que o Galatasaray.

Dir-me-ão que estou mirabolante, que o Deco foi para o Barcelona e que o Anderson para o Manchester. É nessa altura que eu vos lembro da diferença conceptual entre médio ofensivo e avançado, aliás uma diferença bem mais definida do que aquela que separa o médio ala do extremo, ou a heterotopia da Coimbra Fórum. Mais: as posições que os dois desempenharam nos clube de destino são claros indicadores que eles sequer foram comprados para aparecer muito na área adversária: o Anderson encaixou naquela posição do duplo pivot onde militam Hargreaves, scholes, Fletcher ou Carrick (na luta de classes estariam do lado dos bons); o Deco foi servir de ajudante ao Ronaldinho. E escusam de me vir com o Quaresma: na altura em que foi vendido a última vez que o Inter tinha ganho a Champions ainda o Heidegger tinha uma vida sexual moderadamente activa com a Hannah Arendt.

Portanto, se tudo correr mal, o Hulk será o primeiro avançado em muito tempo que o Porto vende a um clube de topo europeu; se tudo correr mal, ficará no Dragão até o ocaso da velocidade o converter numa estátua. Naturalmente, desejo o pior.

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Benfica - Jornada 8 - Favada Asturiana

Recuemos no tempo uma semana: quem, como eu, compreende a essência e o âmago do Benfica, estaria profundamente certo que, na passada quarta feira às 19.45 portuguesas, a equipa que apoiamos racional, porém apaixonadamente, iria perder o jogo contra o Olympique Lyonnais. Perguntais com o devido espanto: Carlos, porque afirmas de forma tão veemente tamanha certeza inquestionavelmente correcta? A resposta é simples, meus preclaros leitores: porque sei perfeitamente o que é o Benfica e, sobretudo, sei perfeitamente com que cosmogonias se orienta o futebol. Vejamos: acaso poderíamos ganhar depois de embandeirarmos em arco com uma vitória por cinco a um sobre o Arouca, como se tivéssemos cilindrado o Dortmund de Sammer, Kholer, Möller e Riedle? É certo que sempre que defrontamos, para a Taça, uma equipa de escalão inferior oriunda da periferia do Porto, o fantasma de Cílio Sousa e do Gondomar volta a pairar na Luz. Mas, caspité, o Fyssas já marcou ao Porto de Mourinho toureando meia defesa azul numa final do Jamor! Acaso Kardec facturaria mais algum golo depois dos dois que marcou para a Taça e que o fizeram prometer mundos e fundos? Se estivesse calado, talvez sim. Abrindo o livro de tal forma, como se tivesse cilindrado o Dortmund de Clos, Ricken e Chapuisat, evidentemente que não.

Se, por mera ironia do acaso, ainda restasse uma ou outra hipótese de fazer qualquer coisa decente na capital do Ródano, a esperança aniquilar-se-ia com a dupla boutade de Jesus, tomando eu aqui a liberdade de usar um francesismo que muito aprecio, boutade. Antes da partida, disse Jota Jota que, um, ganhar em França não é anormal e, dois, que o Benfica joga um futebol único no mundo. No primeiro caso, bastará recordar que antes da marselhesa do ano passado, a última vez que o Benfica foi a França, em dois mil e seis, perdeu dois a um com o PSG. A penúltima vez, em dois mil e cinco, empatou a zero com o Lille em casa (sic - Parque dos Príncipes, com noventa por cento de benfiquistas nas bancadas) com um onze composto por um keeper, seis defesas, dois trincos e dois avançados (vide abaixo)*. No segundo caso, nada de grave seria digno de se assinalar na referida asserção, fosse ela proferida por mim depois de ingerir uma garrafa de Bollinger Special Cuvée. Aliás, casos há em que depois da referida ingestão consigo declarar não só que o Benfica joga um futebol único no mundo como até mesmo que é a melhor equipa de futebol de todos os tempos. Voltando à fraseologia utilizada por Jesus, é certo e sabido que a sua utilização antes dos jogos dá derrota pela certa. Daí que, caros leitores, eu estivesse tão ciente da vitória do Lyon no mítico Gerland como da mesma ter o contributo, por razões óbvias relacionadas com o conceito de fézada, de Lisandro Lopez. A minha única dúvida residia em saber se Aly Cissokho iria ou não marcar golo.

Uma nota final, ditada por um dever de consciência: mesmo em tempos de crise, o Benfica distingue-se pela sua imensa dimensão nacional, parte considerável da sua grandeza. O pedido feito pela actual direcção aos adeptos de se absterem de acompanhar a equipa nos jogos fora, é um indamissível insulto ao benfiquismo. Tão grande como a sugestão de faltar a qualquer jogo de taça de liga ou de campeonato. É preciso ter cuidado com o que se faz ao benfiquismo.

Para desenjoar disto tudo, acabei por aceitar o convite de um velho amigo e, no passado domingo, rumei aos Picos de Europa para comer uma favada asturiana, facto que me impediu de assistir, com a devida dignidade, ao jogo contra o Portimonense e, pior, que me impediu de escrever na segunda e na terça. A favada não estava nada de especial, mas comi que me fartei. Um pouco tipo Javi Garcia, se é que me faço entender.

* Lille-Benfica, 22.11.05, Paris; um dos onzes mais vergonhosos de sempre do Benfica, da inesquecível responsabilidade de Ronald Koeman: Quim na baliza; Anderson, Luisão, Rocky Rocha, Léo, Alcides e Nélson, defesas; Petit e Beto, trincos; Nuno Gomes e Miccoli, avançados. Era tão provável ganhar com um onze destes como o Elvis Presley estar vivo e morar em Fafe.

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Sporting - Jornada 8

A dada altura das nossas existências, pensava-se que o grande problema do futebol português residia na atribuição de apenas dois pontos ao desfecho vitorioso, ao passo que o empate garantia uma valorização de apenas um. Isto, em teoria, levaria as equipas pequenas – doravante, e por mero facilitismo literário-mnemónico-provocatório, aqui identificadas como “União da Madeira” - a arriscar pouco nos campos dos adversários mais poderosos, uma vez que a possibilidade de conseguir apenas um ponto a mais parecia não compensar o risco de tentar ver se o outro clube tinha guarda-redes e lixar-se, saindo de lá com zero pontos e em vergonha. Na época noventa e cinco/noventa e seis, tudo mudava e a vitória na Liga Portuguesa passava a valer três pontos. Esta mudança pretendia funcionar como um truque que levaria os União da Madeira do país a ir aos estádios das agremiações mais fortes com outra atitude, procurando os três pontos, que eram, agora, o triplo  da benesse que o empate concedia. Tratava-se de um repto claro: “União da Madeira, arrisca, tu podes ganhar três pontos! Já não são só dois, agora são três! Chuta!”. É, na sua essência, um truque em muito semelhante àquele que uso na altura de dar o folar aos meus afilhados. Em vez duma nota de dois contos, dou duas de quinhentos paus. Os garotos ficam todos contentes, porque, na sua pueril ignorância, duas notas é sempre melhor do que uma. A possibilidade de ganhar três pontos seria também, e afinal, bem melhor que a de ganhar apenas um. As equipas iriam jogar todas ao ataque, feitas garotos. Feitas parvas. Esqueceram-se, as mais altas instâncias do dirigismo nacional, que as equipas pequenas não pensam como um garoto a pedir o folar, mas antes como um velho  desassisado, daqueles dispostos a matar alguém com um tiro de caçadeira na cara pela simples e suposta razão de lhe terem atiçado o cão com piretes e asneiras várias. No caso do União da Madeira (aqui, e por momentos, representando apenas o clube a que dá nome e não a totalidade de equipas que acham que passar de meio-campo dá gangrena na boca), esse velho multiplicava-se, como sabemos, em cinco eslavos (Zivanovic, Dragan, Stilic, Markovic, Lepi), cinco brasileiros (Milton Mendes, Marco Aurélio, Pedro Paulo, Paulinho Carioca, Rodrigão) e o madeirense Nelinho, mas a ideologia era a mesma: queriam o seu ponto, não três! E tudo fariam por ele. Será, então, possível mudar este statu quo profundamente chato e que consagra entidades como Milhazes a uma carreira de  futebolista profissional ?

Esta postura secular assome-se aos meus olhos como complicada de mudar, daí que considere que os responsáveis devam tentar uma nova variante. Ora, no pretérito domingo futebolístico em Alvalade, lembrei-me que, por exemplo, um jogo desempatado ao minuto oitenta e nove pelo jogador Abel merecia congratular a equipa vencedora, não com três, mas com pelo menos doze pontos. Três pontos por cada fenómeno, portanto. Fenómeno um: Abel existir. Trata-se, não me interpretem mal, de um esforçado e simpático jogador, daqueles que não armam confusões, não estaciona em segunda-fila e, consta até, já deixou passar quinze velhas seguidas à sua frente na sua fila do supermercado, mas que, convenhamos, teve o azar de o futebol profissional não se coadunar por aí além com a necessidade - orgânica, neste caso em particular - de ter invariavelmente de olhar para a bola antes de a pontapear. Fenómeno dois: Abel marcar um golo. Fenómeno três: Abel marcar um golo vitorioso. Fenómeno quatro: Abel marcar um golo vitorioso no último minuto. No mesmo sentido, a equipa que sofresse este golo, deixaria de existir (um  castigo que, ainda assim, peca pela óbvia escassez para quem se deixa derrotar por Abel no último minuto). O Sporting estaria agora na liderança, com vinte e três pontos, mas a justiça tarda em chegar ao futebol português. Talvez as coisas mudem, quando o Porto ganhar com  um golo do Sapunaru no último minuto.  

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