terça-feira, 8 de março de 2011

Benfica - Jornada 22 - A Análise Possível do Cavalheiro Pragmático

Sempre soube ser, em todas as alturas da minha vida, um cavalheiro. Ainda sou daqueles que diz, em discurso oral, offside, keeper e corner, fruto de uma cuidada educação inglesa. Não que, de quando em vez, não enjeite uma boa dose de boçalidade requintada. Porém, é sob a áura do cavalheirismo que começo este artigo, endereçando os parabéns ao F. C. do Porto pela conquista do Campeonato Nacional da Primeira Divisão 2010/2011. O título é inteiramente justo e merecido. Uma equipa que esmaga o Benfica por 5-0 merece ganhar. Teria piada que não ganhasse, é certo. Mas merece. Portanto, glória ao vencedor e honra ao vencido que, adivinhando-se nessa condição desde muito cedo, ainda conseguiu por o vencedor em sentido durante um tempinho. Certo é que a não renovação do título do Benfica começou a desenhar-se aos cinco minutos de época, com o primeiro golo do F. C. do Porto na Supertaça. Quem compreende o Benfica na sua essência cedo se apercebeu que a coisa iria ser muito complicada.


O Benfica perde o presente campeonato por força de três grandes factores: uma arrogância monumental até ao jogo do Dragão, um keeper que, contratado para segurar pontos, nos fez perder mais dos ditos que ganhá-los e, como dizia a canção, with a little help from my friends, ajudinha essa irrelevante no cômputo geral.

No primeiro dos factores, o Benfica de início de época esteve numa crise de identidade brutal, representando-se uns furos acima do seu real valor. Por diversas vezes fez lembrar o típico empresário português espertalhão, que resolve uma dívida contraíndo outra e, sempre de sorriso nos lábios, diz que agora é que vai ser, David Luiz a lateral esquerdo e já está, é desta. Só quando o estado psicótico acabou e o Benfica regressou à terra (e ao Benfica propriamente dito) é que as coisas endireitaram.

No segundo caso, as Robertadas. E o que é uma Robertada? Uma Robertada é uma defesa aparentemente fácil para Roberto Jimenez Gago que resulta num golo escandalosamente ridículo para Roberto Jimenez Gago. Muitas aconteceram no início da época, outras não tiveram consequências no meio da dita – fosse porque o Benfica marcou sempre um ou mais golos que o adversário, fosse porque os adversários foram azelhas – outras começaram a acontecer agora (que o digam Hélder Postiga e Hugo Viana, só para referir as da semana passada). Isto é inadmíssivel ao jogador mais bem pago do plantel e que até parece ser um tipo porreiro. Valha-nos a esperança que o seu agente nos injectou quando disse “Roberto é um guarda-redes com mercado”.

O terceiro caso, as pequeníssimas ajudinhas dos amigos, têm um papel irrelevante entre o deve e o haver. Posto isto, e na esteira melancólica do Benfiquismo, a pior coisa que pode acontecer agora é o F. C. do Porto sagrar-se campeão na Luz. O conceito é já desagradável por si só, mas ainda mais incómodo fica se atendermos à incapacidade do Benfica o ter feito no Dragão o ano passado. É meu dever de cavalheiro informar que temo bem que esta conjugação matemática se possa vir a verificar.

Despindo agora a longa beca do cavalheirismo, socorro-me da assertividade do pragmatismo para analisar o desafio de ontem. Só esta figura me permite olhar, de forma sistémica, os noventa minutos em que o Benfica jogou com uma equipa chamada Sporting de Braga que é composta por jogadores emprestados do F. C. do Porto, jogadores já contratados pelo F. C. do Porto e um treinador do F. C. do Porto. Como tal, encarou este jogo como o jogo do título do F. C. do Porto e de tal forma o ganhou. Só assim se explica o espírito de rivalidade e as bolas de golfe provenientes do lado do Braga, que considerou o Benfica como o seu maior rival de todos os tempos, atributo esse que não deve ser retirado ao Vitória de Guimarães. Mais pragmático que isto? Duvido.

A vitória do F. C. Porto ficou a dever-se exclusivamente a um instante decisivo e a dois dotes. O instante decisivo acontece, claramente como a água, quando Alan faz uma falta a Javi Garcia – uma entrada duríssima, com uma cotovelada nas costelas do espanhol – e Garcia responde no calor da jogada. De acordo com todos e mais alguns critérios legais, espirituais e metafísicos, a jogada deveria ter sido sancionada com:a) falta a favor do Benfica e cartão amarelo a Alan e, b) amarelo a Javi Garcia por resposta. Ainda que assim não se entendesse, seria admissível o seguinte cenário: a) falta a favor do Benfica e cartão amarelo a Alan e, b) vermelho a Javi Garcia por resposta, sendo esta considerada agressão. A coisa, porém, não foi vista assim: Alan faz falta e agride, Javi responde. Javi é expulso e a falta favorece a equipa da casa. Genial.

No que concerne aos dotes, estes são, sem dúvida, os dotes teatrais do jogador Alan e aos dotes bailarinos do keeper Roberto. Relativamente aos primeiros, estes deveriam valer-lhe entrada directa na CTB – Companhia de Teatro de Braga: Alan leva carga na zona abdominal, a ela se agarra em sentido de dor, cai no chão como uma primadona com uma quebra de açúcar, rolando sobre o seu próprio corpo em trezentos e sessenta graus. Quando regressa à frontalidade, a dor diferida de Alan terá sido irradiada do abdómen para a maçã de adão, zona corporal para onde as mãos do actor se dirigem, e que agarram em grito mudo e contorsão dolorosa a fazer pandã com a obra prima de Rivaldo no Japão-Coreia 2002. Genial.

Quanto à Robertada da noite, nada a dizer. Mal a vi, dirigi-me ao armário dos chás e trabalhei uma infusão de dois litros de chá de erva de S. Roberto, tamanha era a azia com que estava.

3 Comentários:

Anonymous CDCS disse...

Temo detectar nessa narrativa algumas inconsistências! Em primeiro lugar ressalvar o fair play e a «áura de cavalheirismo» demonstradas na parte inicial do discurso. Em segundo lugar, a imperiosa necessidade de contestar as ideias subsequente: 1)o Braga, essa aclamada equipa repleta de jogadores e treinador do FCPorto (o que não é bem assim), foi a mesma que «roubou» o segundo lugar ao Porto na época transacta e que foi goleada no Dragão, vendo as hipóteses de chegar ao título no ano passado; 2) o Braga ainda tem, ao contrário do que interessa ao Vitória de Guimarães, aspirações ao 3º lugar e por isso, a vitória do Braga foi para alcançar esse objectivo e não para ajudar terceiros, ou melhor, primeiros a serem campeões; 3) por fim, no que à descrição e magistral deturpação do lance, inebriado por uma espécie de bruma artifical, da expulsão do Javi Garcia, embora admita que haja falta (e há mesmo), em caso nenhum pode ser dito que o Alan agride o Javi (essa é de bradar aos céus) e também é notório, como admitido pelo cavalheiro, que Javi, esse sim, agride o Alan e por conseguinte (sei que esta custa a admitir), é bem expulso. O lance ganha contornos mais dramáticos não pelo árbitro, porque a falta é junto à linha lateral, mas devido a Roberto, ou seja, um jogador do Benfica, aposta essa do treinador desse clube e por isso, cula própria, e isso, além da dúvida razoável!

9 de março de 2011 às 12:02  
Blogger Pedro Paiva disse...

Das poucas análises sérias e imparciais que vi feitas por benfiquistas. Será preocupante a generalidade dos benfiquistas começarem a fazer este tipo de análises.

9 de março de 2011 às 23:27  
Blogger BoyGenius disse...

deixei de o entender.... que crónica tão... triste!

12 de março de 2011 às 13:38  

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