Sporting - Jornada 15
No passado sábado, fiz deslocar toda a minha massa corporal até ao Alvalade XXI, sujeitando a minha existência ao encontro que opunha o Sporting ao Braga (Sporting Clube de), uma sociedade recreativa minhota por quem hei-de conservar sempre algum apreço pelo simples facto de ter, em tempos idos, tido sob contrato a dupla Forbs – Karoglan, uma das mais excitantes frentes de ataque, a nível fonético, da sua época. No que ao jogo propriamente dito diz respeito, basta referir que o Sporting jogou os habituais seis minutos de futebol não-ofensivo (vocábulo a que aqui recorro no sentido de “ofender” as pessoas, e jamais no sentido de “atacante” ou “entusiasmante”) e, por acaso, marcou dois golos. Chegou. Ou melhor, calhou chegar, que isto tem muito de aleatoriedade. No resto, destaco três pessoas: Hélder Postiga, Paulo Sérgio e Carlos Saleiro. O primeiro homem saiu lesionado logo aos sete minutos, ficando por se conhecer a gravidade da mazela – e dando desde logo de barato que o Hélder tem uma lesão crónica na carreira. Com a saída deste particular avançado, diversos tipos de lance sofreram profundos rombos ao nível da probabilidade de ocorrerem, levando desde logo, e então, ao desespero os adeptos de bolas no poste, de grandes defesas do guarda-redes do Braga e de jogadas em que “ai, quase” ou “ai, se a bola passa”. Os adeptos de golos – ou, sendo menos exigente, de jogadas que não terminam com um avançado a cair e a pedir falta, depois de receber a bola de costas para a baliza e, num esforço que dá pena, tentar rodar -, esses, perceberam que vinha aí batata na rede. E, para variar um bocadinho, na rede dos maus (i.e., o adversário do Sporting).
O segundo nome que opto hoje por destrinçar, o de Paulo Sérgio, merece um maior número de considerandos. Não alcanço, sinceramente, a chuva de críticas que chovem das bancadas de Alvalade em direcção ao actual treinador do Sporting. É preciso saber contextualizar, e nós, sportinguistas, sempre fomos bons em quase todos os verbos do léxico nacional - onde, naturalmente, se incluí orgulhosamente o contextualizar. Sérgio não está a fazer uma época deplorável pela simples razão de que Sérgio não é o treinador do Sporting. É, isso sim, tanto estrutural, como ideologicamente, o treinador do Paços de Ferreira. Ainda. E, pelo andar de carruagem, também sempre. Estruturalmente falando, tudo em “Paços” Sérgio parece indicar que aquela matéria sólida respira melhor envergando um corta-vento e um chapéu da JCA do que enroupado com aquelas gabardinas de agora, as de seiscentos contos, que, se não tivessem o símbolo do Sporting no peito, até davam para ir beber um copo ao bar dum hotel caro. Já ideologicamente, a questão roça mais ainda as fronteiras do axioma: se o Sporting está a fazer uma época muito aquém do que a sua essência exige, é preciso não esquecer que Paulo Sérgio está a fazer a melhor época de sempre do Paços. Porque, seja aqui, seja no AC Milan, Paulo Sérgio é o treinador do Paços. Sendo, porém, justo, obrigo-me a dar a mão à palmatória e a reconhecer qualidades em Paulo Sérgio. Pelo jeito, é só uma, mas está lá: Paulo Sérgio é o treinador mais alto da história do Sporting. E isto, até ver, ninguém lhe tira. Da mesma forma que Fernando Santos ainda é lembrado como o treinador com mais cabelo.
Finalmente, Saleiro. Carlos é um nome que, em Alvalade, não se costuma associar a bons avançados, nem sequer a avançados, se quisermos ser intelectualmente honestos: Carlos Freire, Carlos Fumo ou Carlos Bueno são substantivos próprios que, sem sombra de dúvida, confirmam como é pesada a herança de Saleiro. Por outro lado, e combatendo o legado dos “Carlos avançados” em Alvalade, o apelido de Saleiro remete-nos imediatamente para sal, substância que quase todos os entendidos, numa metáfora muito elaborada, associam ao golo. Trata-se, em vista disso, de um dualismo complicado, este com que Carlos Saleiro convive. Não obstante, Saleiro destaca-se actualmente a um outro nível. Ele, que já foi famoso por ser o primeiro bebé-proveta do nosso país. Mais tarde, por ser o primeiro bebé-proveta a tornar-se futebolista profissional. Agora, e como temos vindo a perceber, é famoso por sofrer de uma condição médica muito específica, que obriga a que jogue apenas 75% do tempo de desconto da 2ª parte dos jogos do Sporting. Há quem diga que isto acontece apenas porque Paulo Sérgio é o treinador do Paços e, para os treinadores do Paços, Carlos e avançado, só existe um (Carlos Carneiro), mas estou crente que esta situação ultrapassa em muito essa realidade e só uma condição clínica grave justifica a entrada do jovem ponta-de-lança ao minuto noventa e um nos últimos dois ou três meses. Um caso dramático.
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