Sporting - Jornada 12
“Sporting: um clube bom” será, em princípio, o título de extraordinária obra documental que, por mera indecisão de teor designativo, ainda não encetei. De facto, que sinal de pontuação deve separar título da sua complexa, conquanto objectiva, realidade? O travessão? O ponto e vírgula? O hífen? Dois pontos? Optei, hoje, aqui, por esta última manifestação gráfica por uma razão assaz simples: dois pontos trata-se, precisamente, do que o Sporting perdeu no passado sábado. Decisiva na escolha foi também a eventualidade do intróito imediatamente anterior poder vir a ser alvo de um ditado numa qualquer sala de instrução primária e a senhora professora se vir obrigada a ditar, sem interrupção, “dois pontos” duas vezes – uma pela presença gráfica da expressão, outra pela presença por extenso da mesma -, confundido todos os garotos da sala. Prossigamos. O Sporting, um clube bom, recebia o Porto, um clube que larga maioria da humanidade sabe não ser bom. O jogo tinha, como atractivo extra, o regresso de João Moutinho à casa onde se formou e, até ver, ao sítio onde mais vezes tomou banho de chuveiro. A bondade do Sporting revelou-se logo aqui. Contextualize-se, lembrando os mais esquecidos que, há uns meses atrás, o presidente do Sporting optou por, numa metáfora pomareira, chamar “maçã podre” àquele metro e setenta de existência duvidosa. Porquê maçã, porquê podre? Dando de barato que seria inevitável que Moutinho fosse alvo da ira dos adeptos leoninos, Zé Bettencourt tenta, logo aí, que essa malquerença se traduza no arremesso de maçãs podres, ao invés de se traduzir no habitual desporto azul e branco do lançamento de bolas de golfe e no, entretanto extinto, atirar de moedas de cinquenta paus para a cabeça de Abdelilah Saber. As bolas de golfe são mais caras, mais duras e, ao fim e ao cabo, prejudicariam toda a gente. O Sporting, um clube bom, tenta que Moutinho seja atingido por maçãs – encontra-se, sem grande chatice, a 50 cêntimos/quilo -, e não por bolas de golfe – objecto em que a sacada de vinte vai quase para os dois contos de reis. Um clube bom preocupa-se com a saúde financeira dos seus adeptos. Um clube bom preocupa-se com os seus adversários, tentando que estes sejam atingidos, sim, mas por maçãs. Podres, para não aleijar. É que maçãs até podem provocar dor, mas não as podres, que são quase esponjosas e, sem grande esforço analítico, podemos afirmar que chegam a aconchegar o atingido. Não tenho dúvidas de que um clube não bom teria, através do seu representante máximo, chamado coco, ananás ou capacete a Moutinho. Durante o jogo, o Sporting voltou a revelar a sua faceta de profunda bondade. Vencendo por um tento a zero, e estando o número oito portista – outrora um chorão, actualmente um alvo de caça - postado no chão, queixando-se de dores frenéticas, Liedson, abdicando de dar seguimento a um contra-ataque perigoso, jogou a bola pela linha lateral para que se prestasse assistência médica ao ferido grave. Creio que, estivessem os papéis invertidos, o contrário não se verificaria. Não creio que Moutinho jogasse a bola para fora se, por exemplo, Maniche estivesse no chão, mas também não quero estar a jurar, correndo o risco de ser injusto. O Sporting demonstra ainda ser um clube bom quando impede que este seu último adversário se apresente em campo com onze sul-americanos. Com efeito, o Porto alinhou com quatro portugueses – um recorde para muitos anos -, sendo que três deles foram formados pelo Sporting. Um clube mau ter-se-ia demitido da sua função de logradouro do futebol português, obrigando o Porto a alinhar com mais três sul-americanos (Guarín, Fucile e Rodríguez), e aproximando irremediavelmente da Copa Libertadores o principal grémio da Invicta. É o Sporting, um clube bom, que vai impedindo que o onze do Porto não seja confundido em absoluto com a lista dos membros mais importantes das FARC.
O clássico, é inegável, deixou-nos vários indicadores. Mostrou ao Sporting que jogar vinte minutos com dez jogadores não obriga a que se sofram três golos. Mostrou que Vilas Boas continua, no meu entender, e acima de tudo, a destacar-se por ser um dos piores utilizadores do conjuntivo que o nosso léxico já conheceu. Creio também que, até ver, e sabendo que o mundo do futebol não costuma ser o palco por excelência para pessoas ruivas, o treinador do Porto ainda é um “Mark Pembridge dos técnicos” e dificilmente se aproximará sequer do “Matthias Sammer dos técnicos”. Uma outra palavra, também, para Maniche, que, vestindo de verde, continua a ser um jogador do Porto: ou seja, continua dar bordoada da grossa, e impune, no João Moutinho. Tudo fait-divers, se quisermos ser justos. Deste encontro da jornada décima-terceira, concluo, portanto, uma realidade em que já há muito era versado: o Sporting é um clube bom.
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2 Comentários:
mesmo disfarçado com tom humorístico, o texto não consegue esconder a inveja que possui do FC Porto. É pena que não lhe reconheça o mérito e se esconda por trás do humor (neste texto mal conseguido).
Um abraço e votos de melhores textos!
Caro Tiago,
para ler sobre os méritos de empatar em Alvalade, recomendo o texto de Sena Martins.
Um abraço e tudo de bom.
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