Sporting - Jornada 11
Por esta altura, e após cento e tal ininterruptos anos, já poucos bufares se farão ouvir quando se constata que o Sporting é um clube sui generis. Precisamente, e não me deixando mentir, a jornada décima-primeira trouxe-nos um Académica x Sporting, partida que, por alturas do descanso, se nos ia apresentando como arrumada: dois secos no bucho da briosa e a habitual meia-dúzia de “ah!, quase/se a bola passa” e demais derivados pornograficamente próximos com que Hélder Manuel Postiga nos brinda semana a semana. Entretanto, no reatamento, a equipa da casa logo reduziu a diferença. Se o Sporting fosse um instituição junto da qual a lógica se manifestasse de alguma forma, e baseando-nos nós aqui na lógica registada na aparição imediatamente anterior (a da partida com o Vitória Sport Clube), a equipa, vendo o adversário reduzir a vantagem verde para apenas um tento, brindaria o orbe com um golo sofrido a, aproximadamente, cada seis minutos. Mancando-me um papel, fiz as contas no braço do meu afilhado, tendo rapidamente concluído que, alcançando a Académica o um-a-dois no minuto inicial da segunda metade, o resultado final cifrar-se-ia nuns apocalípticos oito-a-dois para os Senhores Doutores. Valha-nos, a mim e aos meus fiéis companheiros de culto, que o Sporting e muitos - quase todos - fenómenos de coerência não se conhecem, tampouco ouviram sequer falar um do outro. Recordo, como indicador inequívoco deste último aspecto, que o Sporting foi a única equipa mundial a, até hoje, ter vencido o Inter de Milão de – do mais baixo para o mais alto – Zanetti, Figo, Maicon, Samuel, Adriano e Ibrahimovic a uma terça-feira, para, no sábado seguinte, perder com o Paços de Ferreira de – por ordem de aniversário, contando a partir de hoje – Mangualde, Fredy, Elias, Didi, do árbitro João Ferreira e do irmão mais velho do Bruno Alves. Sintomático.O Sporting, já aqui o fiz notar antes, luta, árdua e isoladamente, pela competitividade da nossa liga. Luta também, parece-me irrefragável, por nunca resolver um jogo muito cedo, que tudo isto faz tudo parte de um espectáculo massificado e que quer continuar a ser partícula integrante da indústria do entretenimento. Tem, portanto, de entreter, de manter a emoção nos píncaros, ou, como no caso do futebol luso, naquela fronteira do “ainda nos lixamos”. Daí que o Sporting, como se constatou no passado sábado, decida relançar jogos que pareciam estar arrumados. Gosto de crer que é opção. Gosto que possa ser uma forma de lutar contra os “bom, ainda faltam dez minutos para acabar, mas vou andando, que ainda tenho o carro longe e não quero apanhar aquele trânsito todo à saída, que fica uma confusão e depois eu tenho de fazer as manobras sob pressão, com as pessoas dos outros carros todas a olhar e sem paciência, e deixo o carro ir abaixo e mijo-me todo nas calças com os nervos e chego a casa todo mijado”.
Mas, em boa verdade, cheira-me que existe é um problema no contínuo espaço-tempo de Alvalade. É que, a dada altura de determinados jogos, Paulo Sérgio, apesar da indumentária e saúde capilar exposta nos indicarem o contrário, continua a treinar o Paços. Em muitos momentos – que, por mero azar, têm coincidido sempre com todos os jogos para que foi convocado -, Abel volta a ser atleta do Penafiel e, por isso, cair sozinho, ou posicionar-se defensivamente como uma máquina de lavar, trata-se de acontecimento normal e, então, desculpável. Rui Patrício ainda tem doze anos, está no Leiria e Marrazes e as saídas não existem, visto que nos jogos dos infantis ninguém centra. Evaldo, esse, está ainda no Marítimo, daí que possa deixar passar todos os cruzamentos, que o van der Gaag corta tudo com a sua careca busca-bolas. Estes fenómenos são apenas explicados através de uma fenda qualquer no contínuo espaço-tempo. Até porque, pude comprovar eu no fim-de-semana, José Mourinho, com vantagem mínima em Gijón, tira um médio, Ozil, mete um defesa, Arbeloa, e continua a ser o Mourinho. O Paulo Sérgio, também adiante no marcador por um, e em terreno alheio, tira um médio, Vukcevic, mete um defesa, Torsiglieri, e é o treinador do Paços. Ou seja, a mesma acção, em dois locais distintos, têm resultados antagónicos: Mourinho mantém-se Mourinho, Paulo Sérgio converte-se no treinador do Paços. O ideal era tapar o raio da fenda no contínuo espaço-tempo, até porque, com o regresso de Pedro Mendes, essa sim, assome-se como a grande chatice de índole física a talar o Sporting. Ex aequo com o joelho do Izmailov, naturalmente.
P.S: Ainda com duas rodadas por disputar, O Zenit de São Petersburgo sagrou-se campeão russo. E, de facto, este parece ser o ano competitivo das equipas com três portugueses: além do novel-campeão da Federação Russa, Real Madrid, Chelsea e Porto vão muito bem lançados nas respectivas ligas pátrias.
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4 Comentários:
Com o devido respeito, permita-me acrescentar ao rol de equipas com três portugueses o APOEL de Nicósia, que se apresenta, aos dias de hoje, muito bem posicionado para arrecadar, mais uma vez, o primodivisionário de futebol do Chipre, contanto, nas suas fileiras, lá está, com 3 portugueses.
Temos, por outro lado (confirmando a regra?), o PAOK, que, também ele com 3 portugueses, não conseguiu, na época transata, obter o desejado título de campeão de futebol grego. Podemos argumentar que no ano passado o PAOK tinha não 3 mas 4 portugueses nos seus quadros, se contarmos com o treinador Fernando Santos, mas nesse caso também Porto e Real Madrid cairiam nessa classificação. No entanto, toda esta excepção ocorreu no ano passado e este ano é que é o ano das equipas com 3 portugueses.
Cumprimentos!
Nunes d'Areeiro
Bem lembrado, caro Nunes. Obrigado por me dar ainda mais razão.
Um abraço,
J. Salinas
só trocava o "assome-se" por "assume-se"
Metendo, de novo, a foice em seara alheia, permita-me, caro ki113r, que lhe relembre que "assumir" e "assomar" são dois verbos diferentes...
Dando-se o facto de neste caso ambos os verbos poderem ser utilizados com sentido semelhante na frase em questão, não me parece, de facto, que J.Salinas tenha escrito um em vez do outro por engano, mas sim por consideração.
Cumprimentos!
Nunes d'Areeiro
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