Sporting - Jornada 9
Há precisamente vinte épocas atrás, o Sporting vencia o Boavista, no Bessa, matando um borrego com mais de trinta anos; mas, mais do que limpar o sebo a um bovídeo metafórico, o clube provava, para além de qualquer dúvida, que estava fadado a ter, como heróis destas matanças, os seus jogadores mais medíocres. Nesse encontro, que vencemos por claro três a zero, os tentos foram apontados por Hamilton de Souza (vulgo Careca), Filipe Ramos e Jorge Cadete. O primeiro, de Careca, tratou-se de um cabeceamento que a ortodoxia futebolística queimaria numa fogueira para todo o sempre, sendo que, entretanto, já tive, por razões de integração parcial em sociedade, de me convencer de que o comentário “Careca é, efectivamente, um atleta de eleição, um civil teria partido a espinha a fazer este movimento” é fruto da minha imaginação achacosa e não uma tirada factual que ouvi durante o resumo que passou no Jornal da Tarde do dia seguinte. Pouco depois, Jorge Cadete desviaria um livre de William Douglas para as redes de Alfredo e, mais tarde, Filipe Ramos finalizaria com frieza uma boa jogada de envolvimento ofensivo. Estava feito. O borrego de trinta e tal anos jazia e a história do Sporting, ainda que no decurso de mais um momento de glória, estava irremediavelmente manchada. Jorge Cadete, acedo, poderá ser nome discutível, enquanto indivíduo a colocar na categoria de jogadores leoninos portadores de uma mediocridade definidora. Em casos de dúvida, como este, costumo usar um critério, uma pergunta simples e directa que, se contestada afirmativamente, postará um atestado eterno de mediocridade no atleta em causa: colocou, nos primeiros dias de Outono de noventa e quatro, Jorge Paulo Cadete Santos Reis um Toyota Celica vermelho à venda no jornal “Ocasião”? Sim. Os borregos de elevado porte e durabilidade sucumbiram sempre aos pés de jogadores sofríveis. Há que viver e encarar isto como uma inevitabilidade leonina. Careca, Cadete e Filipe são apenas três nomes de um rol coerente. Quem acabou com a malapata leonina com o Internazionale de Milano? Marco Caneira. Quem acabou com o jejum de vitórias para a presente liga, que vigorou de trinta de Agosto a vinte e quatro de Outubro? Abel. Quem meteu o Sporting numa final europeia, quarenta e um anos depois? Miguel Garcia. Ademais, regista-se, bastas vezes, o fenómeno inverso, o de ter os craques a manter os borregos vivos. Por altura do épico desempate por penalidades contra o Nápoles de Maradona, o Sporting não eliminava uma squadra italiana há mais de trinta anos. Quem falhou as penalidades? Luisinho, internacional brasileiro, integrante da única equipa (o Brasil '82) que levou a FIFA a ponderar o fim dos golos como factor único para definir o vencedor de uma partida de futebol. Marinho, Miguel ou Jorge Portela falhariam? Não, nem por sombras. Quem também falhou, realmente, foi Fernando Gomes, o bi-bota, o “marcar um golo é como ter um orgasmo” - pensamento que, na verdade, faz perfeito sentido se atentarmos na dificuldade feminina para marcar um golo. Amaral, não só não falharia, como meteria a bola na gaveta de Giuliani. À luz dos acontecimentos do pretérito dia do Senhor, todo este intróito se reveste de algum sentido cronológico, ainda que um de natureza marcadamente pusilâmine. O Sporting deslocava-se a Leiria, cidade onde, para a Liga maior do nosso futebol, havia vencido por apenas uma vez nos últimos dez anos. Esse borrego leiriense começara, de resto, a tomar forma num encontro em que Luís Bilro marcou, a Peter Schmeichel, o canto directo mais feio da história de todo o futebol - o vindouro, inclusive -, facto que a cidade de Leiria assinalou com um livre-passe vitalício para o ex-lateral-direito (transmissível para o filho-padrão) ter prioridade absoluta em todas as rotundas do distrito. Este último Leiria x Sporting – encontro em que a equipa da casa já apresentou os titulares poupados contra o seu adversário anterior - viu morrer um borrego. Jaime Valdés foi o carrasco. E foi o carrasco por duas simples razões. Primeiro, porque era ele que estava na área para receber o passe de Postiga e não Postiga para receber o passe de quem quer que fosse. Segundo, porque, quando os papéis se inverteram e Valdés se viu na mesma posição de onde Postiga realizou o tal passe, Jaime ignorou a presença do vila-condense na área e chutou para a baliza. Resultado: dois golos. Estivessem os papéis invertidos e o borrego de Leiria ficava mais um ano a encher a pança (não obstante os dois bons remates ao lado, à barra ou contra o guarda-redes que Postiga realizaria nesses lances invertidos). A, aqui, quintessencial questão deve ser colocada: será Valdés, então, um cepo? Não me cheira e vou esperar que não se confirme a cepice. Que seja o princípio de uma nova era de borregos mortos por futebolistas leoninos que não desbaratem por completo todo o conceito de mais-valia, marxista ou não.
P.S: Ontem, em Gent, o Sporting teve a oportunidade de resolver um borrego de sempre: vencer na Bélgica. Nada feito. Após o Standard de 1958, o Brugge de 67, o Malines de 90, o Waseige de 96, o De Wilde de 96 a 98, o Lierse de 97 e o Mbo Mpenza de 2000 a 2001, o Sporting volta a não conseguir um desfecho positivo em terras belgas. Muito para além da derrota, há a destacar negativamente a capitania de Abel e, depois, de Postiga. Fica, assim, mais complicada a missão de apagar quaisquer registos da presença desses dois cidadãos em onzes do meu clube.
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