quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sporting - Jornada 10

A competitividade duma liga é, dizem os encartados (Joaquim Rita, etc.), uma bênção. Toda a gente, desde os espectadores aos melhores praticantes e treinadores mundiais, lhes dão, sem hesitar, preferência em relação às chamadas “ligas periféricas” - um simpático epíteto para “não competitivas”, que, por sua vez, se nos apresenta como um ainda mais simpático epíteto para “uma porcaria dum esterco” ou vice-versa. De entre umas quantas ligas que, tal como a nossa, atingiram a sua décima ronda no passado fim-de-semana, eu destacaria três. Antes das demais, a mítica Lega Calcio, onde a Lazio SS, com os vinte e dois pontos até aí amealhados, liderava, seguida dos dois chatos crónicos de Milão: Milan (vinte pontos) e Inter (dezanove). Imediatamente após, merece aqui evidência a neo-rica La Liga, com o Real Madrid, novo clube preferido de todos os troca-tintas cujo clube preferido é aquele que José Mourinho estiver a treinar na altura, a chefiar (vinte e seis pontos) aquela maralha de equipas castelhanas que, em 90% dos casos, parecem o Club Deportivo Logroñés. Ainda neste certame, e acossando de perto o ex-clube de, entre outros, Carlos Secretário, Edgar, Zidane e Agostinho, surge-nos o Barcelona (vinte e cinco pontos), ao passo que, registando desempenho propínquo, encontra-se o Villarreal, um dos mais competentes clubes amarelos que existem. Por fim, é digna de referência a T&T Pro-League, de Trinidad e Tobago, onde os trinta pontos do Defence Force deixam já o Joe Public e o W Connection a onze e doze de distância, respectivamente. Ora, caríssimos homens de bem, com que liga se parece a nossa?

A evidência esmaga-nos e tomo a liberdade de não nos envergonhar a todos e às nossas famílias com respostas a axiomas deste calibre. Reservo-me, por outra, e contudo, também o direito de não sentir qualquer vergonha. É que o Sporting tudo faz para tornar o nosso campeonato mais competitivo. Tivemos Paulo Bento durante quatro épocas, por Deus! Durante esse período, perante a possibilidade de contar com óbvias mais-valias que desequilibrariam a prova a nossa favor, optámos por dispensá-las (Silvestre Varela), por não as contratar (o irmão do Luís Coentão) ou por, simplesmente, amuar com elas (Stojkovic, Vukcevic, entre uma imensidão de outros). Optámos ainda por gastar grande parte do nosso orçamento no único canhoto do mundo que custa novecentos mil contos e não sabe jogar futebol (Grimi). Saiu Bento, mas manteve-se a nossa testilha pela tão-desejada competitivade: contratámos, para esta temporada, um treinador a uma equipa menor e, sobretudo isso, com mentalidade de equipa menor, que, consigo, trouxe uma equipa técnica composta por tipos ex-Gil-Vicente - e que, por isso mesmo, ainda acham que empatar em Alvalade é o melhor resultado das suas vidas. Mais: jogamos com um guarda-redes que não faz uma única defesa que Bastón, ex-Chaves, não fosse capaz de fazer também; com Abel, facto que ameaça seriamente o sucesso da humanidade enquanto civilização; e com Postiga, um elemento ofensivo que, no número de foras-de-jogo que alcança por partida, faz lembrar Ayew, e, na velocidade, nos evoca o Jardel pós-empréstimo ao Ancona.

Há dias, não bastando isto, nem os incontáveis passes perfeitos que fez para os pés dos adversários, o jogador Maniche decidiu que, em honra da competitividade do jogo com o Vitória Sport Clube (a competitividade de uma liga é a competitividade dos seus jogos e Maniche sabe-o), o seu próximo sacrifício seria o de ser expulso. Como? Com um pontapé à “Claudio Caniggia em Emílio Peixe”, com a diferença de, agora sim, se registar uma expulsão, que isto de jogar de verde ainda é um posto. Mas em quem espetar o biqueiro? Nunca no Targino, que esse é o gajo mais perigoso do Guimarães, e isso seria um atentado à competitividade. Perante as possibilidades, fazia sentido é dar um pontapé na perna dum gajo que este ano ainda só marcou de cabeça. Tomada a decisão, era esperar que o tipo passasse perto. Pronto, já está, agora é só o Maniche fingir  lhe entrou uma coisa no olho. O jogo, esse, que estava arrumado, deixou de o estar, e, até final, Paulo Sérgio confundiu-se todo, e, julgando treinar ainda o Guimarães na visita a Alvalade, decidiu queimar tempo fazendo substituições no tempo de descontos de um jogo que, na realidade, estava a perder. A confusão é natural, que ainda nem seis meses se passaram. A verdade – inequívoca, no meu entendimento – é que o Sporting tudo faz para tornar o principal torneio desportivo do país numa prova que se destaque pela competitividade. A boa-fé do Sporting - com quatro vitórias, três empates e três derrotas em dez rodadas, para além de, a nível pontual, estar bem mais próximo do líder da Liga Orangina do que do líder da Liga Zon Sagres – comprova a pretensão de, em Alvalade, se promover a aproximação do actual campeonato nacional à Lega Calcio ou à La Liga. O Sporting quer que a nossa liga seja como elas. O Porto é que, feito parvo, quer que isto continue a ser a T&T Pro-League.

P.S: João Moutinho, pessoa a quem, num dia bom, reconheço qualidades exclusivamente enquanto mamífero, manifestou em tempos o seu desejo, firme, de partir para outras paragens, em direcção a, e cito, “uma liga mais competitiva”. E, embora a nível de proximidade duma guerra civil, a Liga que acolheu João Moutinho tenha muito mais a ver com o campeonato da Albânia, urge notar que, no que à competitividade diz respeito, esta, e como acabei de fundamentar, é quase irmã da T&T. Querias competitividade, meu pequenote? Aí a tens. São assim, as vinganças do Sporting.

P.P.S: No domingo, passei os olhos pelo Porto x Benfica. O meu anseio, como sempre nestes jogos, passava por ver expulsões em barda e, se possível, mais escaramuças do que arremessos laterais. As incidências do encontro só me levaram a concluir que o guarda-redes do Benfica defendeu muito mais bolas de golfe do que de futebol. Perante a dimensão de umas e de outras, o resultado final parece-me um claro exagero.

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1 Comentários:

Anonymous oboshxmexidoshx disse...

onde se lê "troca tintas" dever-se-ia ler "vira-casacas"

28 de novembro de 2010 às 22:11  

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